(Rogerio Soares/Arquivo AT) A confirmação de que o El Niño caminha para se tornar um fenômeno de intensidade extrema, um Super El Niño, com 81% de probabilidade de consolidação estimada pelas agências meteorológicas, vai bem além do debate científico. Trata-se de uma ameaça socioeconômica iminente que projeta consequências intensas sobre o planejamento nacional. O Super El Niño é uma versão muito intensa do fenômeno El Niño, que ocorre quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam muito mais quentes do que o normal por vários meses. Esse aquecimento altera a circulação dos ventos e o clima em diversas partes do mundo, provocando mudanças como chuvas acima da média em algumas regiões, secas severas em outras, ondas de calor mais intensas e impactos na agricultura, no abastecimento de água e na pesca. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O relatório detalhando os impactos potenciais sobre o agronegócio e a infraestrutura brasileira antecipa um mapa de vulnerabilidades que exige mais do que reflexões sobre as razões pelas quais fenômenos dessa natureza ocorrem. Exige ação coordenada e a mobilização imediata do poder público. A desigualdade dos impactos no território brasileiro é o primeiro grande desafio para os gestores. Enquanto a Região Sul se prepara para o fantasma do excesso de chuvas, que destrói lavouras de soja, milho e arroz, além de assolar cidades com enchentes devastadoras, o Norte e o Nordeste enfrentam o extremo oposto. A perspectiva de uma seca severa na Amazônia Legal ameaça a subsistência de produtores e eleva o risco de incêndios florestais de grandes proporções. No Sudeste e Centro-Oeste, o calor e a irregularidade das chuvas ameaçam atrasar safras, prejudicar o café e a cana-de-açúcar, e sufocar a pecuária devido à perda de qualidade das pastagens. Essa desregulagem climática severa tem consequências imediatas ao cidadão comum. O desabastecimento de itens básicos gera pressão inflacionária em cadeia, encarecendo desde hortifrutis até proteínas animais, impactadas pelo custo da ração. A escassez hídrica nas bacias do Centro-Norte ameaça a geração de energia pelas grandes hidrelétricas, forçando o acionamento de térmicas e um inevitável aumento na conta de luz. Diante desse diagnóstico, municípios e estados não podem esperar as primeiras tempestades ou secas extremas para reagir. É imprescindível que planos de contingência robustos e articulados sejam articulados desde já. Limpeza de canais, dragagem de rios, reforço de encostas e mapeamento de áreas de risco no Sul e Sudeste devem caminhar lado a lado com estratégias de manejo de água e suporte técnico aos produtores no Norte e Nordeste. A gestão pública moderna mede-se pela capacidade de mitigar tragédias anunciadas. O Super El Niño não é uma hipótese distante; é uma realidade com grandes chances de ocorrer. Proteger a economia, o campo e, acima de tudo, as vidas humanas depende de ações imediatas por parte das lideranças.