[[legacy_image_357911]] Há uma caricatura na política brasileira que tenta explicar por que nos discursos de candidatos em época eleitoral dificilmente constam alguns setores ou obras mesmo que consideradas importantes. A tese de que não rendem votos explicaria a ausência de obras mais estruturantes, como ampliação de redes de coleta de esgoto, drenagem de ruas e avenidas, monitoramento da qualidade das águas que abastecem as cidades, contenção de invasões em áreas de risco, entre outras. Na outra ponta, a predominância de ações mais engajantes: construção de escolas, hospitais, geração de emprego por meio de programas de estímulo, pavimentação de ruas e construção de moradias. A tragédia no Rio Grande do Sul tem a capacidade de mudar o curso dessa história e imprimir uma página a mais nos cadernos que compõem os planos de governo dos candidatos a qualquer cargo público, incluindo aqueles que estão em disputa este ano, para prefeito e vereador. Em um mês de cheias e alagamentos, o estado já contabiliza 155 mortos, 94 desaparecidos, milhares de desabrigados e milhões de afetados por bloqueios e desabastecimento de itens básicos. O quadro pressiona os políticos a tomar ações imediatas para reagir aos problemas causados pela emergência climática e a se explicar sobre a falta de ações preventivas. Esses são itens que devem constar, obrigatoriamente, nos debates e propostas de governo dos que pleiteiam cargos públicos nas eleições de outubro. É sabido que tragédias assim têm, muitas vezes, baixo potencial de perenização na memória brasileira, fazendo com que suas consequências sejam rapidamente esquecidas pela dinâmica das cidades e do País, em que notícias urgentes se sobrepõem àquelas que ganharam foco durante tanto tempo. No Brasil, especialmente, esse é um risco que se corre, visto que o sistema prevê eleições a cada dois anos, e o noticiário político acaba ganhando outros focos muito rapidamente. A mídia, as entidades ambientais, as universidades e a parcela da população mais engajada com a urgência ambiental precisam cumprir o seu papel, que é o de fixar no topo da memória coletiva os impactos causados pelas cheias no Rio Grande do Sul e atrelar essa tragédia às mudanças do clima e todo o contexto que envolve essa questão. A comunidade científica tem sido eficiente na tarefa de provar a relação entre causas e efeitos, e também em evidenciar que fazer o mundo voltar ao que era há cinco ou dez anos não mais será possível, ainda que os países cumpram os acordos internacionais de reduzir a emissão de gases de efeito estufa. Em sendo assim, o que gestores públicos precisam fazer é mostrar quais medidas estão sendo tomadas para mitigar os impactos dessas mudanças, tanto na infraestrutura das cidades, como na saúde, na economia e na qualidade de vida. Essas são as providências que os candidatos deste ano precisam deixar claro que tomarão, especificando o tempo de cada ação, de onde virão os recursos e que tipo de impacto ajudará a mitigar.