(Marcello Casal Jr/Agência Brasil) O governo lançou nos últimos meses linhas de crédito mais baratas para reduzir o endividamento das famílias. Enfrentar a expansão das dívidas com mais financiamento parece uma incoerência. Porém, a lógica da estratégia está em trocar um empréstimo com juros mais altos por outros com taxas menores. Entretanto, a eficácia dessa migração financeira depende do trabalhador. Ele pode ficar tentado a não mudar seu padrão de vida, abandonando um esforço que reduziria o comprometimento de sua renda com as instituições bancárias. Segundo o Banco Central, os endividados destinam 30% de seus salários e outras fontes de ganhos para pagar prestações do crédito. É uma situação que impede esse público de voltar a consumir e investir. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Uma pesquisa divulgada na segunda-feira pela Serasa Experian traz dados que parecem levar a um efeito limitado do Novo Desenrola, programa que renegocia dívidas e que já atendeu 7 milhões de famílias inadimplentes. Conforme o levantamento, dois terços dos consumidores que tomaram crédito pelo consignado chamado Crédito do Trabalhador possuem dois ou mais empréstimos ativos. O Crédito do Trabalhador é uma linha mais segura para os bancos porque as prestações são descontadas diretamente no salário, reduzindo o risco de atrasos ou calote. Esse financiamento tem a vantagem de oferecer taxas mais baixas, de 1,99% ao mês. Porém, quando esse tomador faz empréstimos paralelos, por outras fontes de crédito e em bancos diferentes, acaba contratando juros maiores, diz a Serasa. Dessa forma, esse trabalhador não conseguirá sair de um endividamento elevado, que não depende somente de financiamentos mais baratos. Ele precisa identificar a origem do rombo de seu endividamento e mudar sua relação com o dinheiro, restringindo seus gastos e não realizando compras parceladas. Também é preciso renunciar a um conforto que sua renda não consegue sustentar. Os economistas alertam que o uso de financiamentos por muito tempo dá ao endividado um padrão de consumo que ele na verdade não tem. Para manter esse ritmo, ele vai fazer mais dívidas, pagando cada vez mais juros aos bancos. Para o consumidor se conscientizar sobre as causas e os impactos dos financiamentos em suas contas, seria preciso investir pesado em educação financeira, medida que foi incluída no primeiro Desenrola. Pela situação atual, percebe-se que essa iniciativa não saiu do papel. Há mais um problema a ser enfrentado: a facilidade com que as ofertas de crédito dos bancos tradicionais e fintechs (bancos e financeiras digitais) chegam ao consumidor. Hoje, notificações constantes no celular prometem liberação rápida do dinheiro, sob risco de taxas elevadas. Portanto, a epidemia do endividamento precisa ser combatida com medidas integradas, como educação financeira, Desenrola, linhas mais baratas e moderação com a concessão de crédito.