[[legacy_image_307832]] Gráfico estampado em várias capas de jornais e sites brasileiros, no último sábado, chama a atenção para uma realidade que está se desenhando há tempos, mas que ainda não desencadeou o conjunto necessário de ações: a população do País está envelhecendo rapidamente, inversamente proporcional aos nascimentos. O percentual de pessoas com 65 anos ou mais chegou em 2022 a 10,9% da população, alta de 57,4% em relação aos números de 2010, quando essa faixa representava 7,4%. Por outro lado, o total de crianças de até 14 anos recuou nesses 12 anos, de 24,1% em 2010 para 19,8%. Se o comparativo for com 1980, a queda é ainda mais surpreendente. Naquele ano, os jovens nessa faixa etária representavam 38,2%, e os mais idosos apenas 4%. Falar sobre envelhecimento, via de regra, ainda gera desconforto e preconceito, especialmente quando a abordagem é o espaço que os idosos têm (ou não) no mercado de trabalho, os serviços específicos que precisam dispor para que suas necessidades sejam atendidas, e como se tornam um problema para as famílias quando dependem de terceiros para os cuidados diários. No setor público, o quadro não é diferente, começando pela baixa oferta de residências de longa permanência para os idosos mais necessitados, a infraestrutura urbana que não está adaptada para a mobilidade desse público, a insuficiente oferta de espaços públicos e centros comunitários com opções específicas de esporte, lazer, cursos e convivência, apenas para citar alguns. Para além desse quadro, uma outra realidade é ainda mais preocupante: a falta de médicos geriatras. Um trabalho do Instituto de Estudos Para Políticas de Saúde publicado em abril mostra que apenas 0,7% dos médicos que concluíram a residência em 2020 se especializaram em geriatria, índice que se manteve praticamente estável ao longo dos dez anos anteriores e contrasta com os 9,5% dos que concluíram a especialização em pediatria, por exemplo. O Brasil tem, hoje, 2,6 mil geriatras, quando a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia estima que o déficit seja de 28 mil profissionais. Não faltam dados para evidenciar que o quadro tende a se agravar se medidas não forem adotadas de imediato. É possível enxergá-las como ‘um problema a ser resolvido’, sim, mas até mesmo esse ponto de vista é equivocado. Os mais velhos são dotados de capacidades que precisam ser valorizadas, especialmente no ambiente corporativo, onde até mesmo os 50+ já começam a ser vistos como descartáveis. Além disso, esse público representa um nicho específico de consumo de produtos e serviços, o que se estabelece como um pilar econômico promissor e ainda inexplorado. A fotografia etária do Brasil caminha para se aproximar de países desenvolvidos, como França e Alemanha, e o Brasil pode se espelhar nesses exemplos já consolidados para extrair o que funcionou e o que precisa ser aprimorado para o acolhimento sadio e digno a esse público. Ainda há tempo para isso.