[[legacy_image_95081]] Ultrapassam as fronteiras nacionais os recorrentes atos e declarações do presidente Jair Bolsonaro contra a lisura do sistema eleitoral e a composição do Supremo Tribunal Federal, a ponto de o mandatário chegar ao ineditismo de pedir o impeachment de um dos ministros da mais alta Corte brasileira. Sempre impelido pela maior de suas razões particulares — reeleger-se —, despeja combustível diariamente na alta fogueira que criou. Não se pense que a densa fumaça oriunda dessas chamas confunde a classe política, também ela dedicada em primeiro lugar aos próprios interesses. É por cálculo político que tudo se faz aos poucos, em geral mais lentamente do que se poderia esperar numa democracia consolidada. O Congresso poderia ter reagido com firmeza logo após as primeiras ameaças presidenciais. Porém, se o tivesse feito, não lhe seriam abertos os cofres do Tesouro na proporção que desejava, com a liberação de bilhões de reais para projetos e obras visíveis em redutos parlamentares. É mais fácil negociar com um presidente em exercício do que buscar garantias com quem quer que o sucedesse. A névoa cerrada proveniente desse fogo atordoa, na verdade, o cidadão comum. Uns se veem intoxicados pelo constante aumento de preços: alimentação, gasolina. gás de cozinha, aluguel, educação, saúde. Outros estão afetados pela inexplicável necessidade de, a todo custo e sem preocupação em reunir alegações razoáveis, defender o Governo sob qualquer circunstância. E todos sofrem com o descuido generalizado na contenção da pandemia, sob o argumento de que é tempo de retomada econômica. Seriam problemas suficientes para o cotidiano nacional, não fossem também sentidos internacionalmente — e assim se volta ao início deste texto. O mundo exterior civilizado vê o Brasil com preocupação. Não porque haja temores humanitários, mas porque este é um dos maiores mercados consumidores do planeta. Se há incerteza quanto ao funcionamento mínimo das instituições e, em última instância, à estabilidade democrática, nada terão a fazer aqui os grandes investidores. Afinal, se o País tem capacidade de consumir diminuída por uma política partidária nebulosa e uma economia errante, estrangeiros com capacidade financeira buscarão outros lugares para investir. Sabe-se que a criação de empregos é o que garantirá a cidadãos capacidade de consumir, e este será o modo de estimular outros segmentos de produtos e serviços. Tem, contudo, ocorrido o contrário. Assim se conclui o círculo vicioso em que o Brasil está metido: Governo sem bússola, políticos oportunistas, população confusa, má imagem externa, crises social e econômica, Governo sem bússola. O Sete de Setembro, data na qual arruaceiros prometem criar caso em defesa de quem não a merece, deve ser lembrado no sentido original: o da Independência, na qual o País passava a ditar seu destino, para o bem e para o mal. Depender, só da democracia, feita por todos.