(Ricardo Stuckert/ PR / Agência Brasil) A Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou o tarifaço do presidente Donald Trump alegando que a imposição de taxas sobre importações deveria ter passado antes pelo Congresso. A expectativa dos juízes era de que Trump negociaria com os parlamentares alguma solução para reverter essa suspensão. Porém, ele preferiu atacar essa instituição da democracia americana, chamando o resultado do julgamento, favorável às ações judiciais de empresas e de 12 estados democratas, de uma “decisão vergonhosa, profundamente decepcionante e ridícula”. Em seguida, Trump criou uma taxa de 15% válida para todos os países com base em uma lei comercial de 1974, específica para enfrentar problemas no balanço de pagamentos (saldo das transações com o exterior). Ela valerá por apenas 150 dias, mas até lá a Casa Branca poderá encontrar alternativas. De qualquer forma, Trump teve sua maior derrota na sexta-feira, quando a Suprema Corte votou pela suspensão do tarifaço. Questionada por economistas e vista como ultrapassada e típica de países fracos, a imposição de taxas sobre importações está no centro das iniciativas voltadas ao eleitorado trumpista mais ressentido por não participar das riquezas da atual excepcionalidade americana, as companhias de tecnologia. Esse público foi atingido nas últimas décadas pela emigração de indústrias para a Ásia, com Trump percebendo mais espertamente do que os democratas esse importante fenômeno socioeconômico. Além dele não poder cumprir o que prometeu - trazer essas fábricas de volta e “fazer a América grande novamente” (da sigla em inglês do movimento trumpista Maga) - sua estratégia comercial desastrosa causou a perda do poder aquisitivo. A inflação não chegou aos níveis esperados, mas se manteve resistente aos juros mais altos e está muito acentuada em produtos específicos, como carnes. A queda do tarifaço também instalou uma confusão na gestão econômica de Trump. Desde a imposição das taxas em abril do ano passado, o Tesouro arrecadou US\$ 133 bilhões. Com a decisão da Suprema Corte, a tendência é de que muitas empresas americanas e do exterior entrem com ações para serem ressarcidas. Por outro lado, a possibilidade de Trump conseguir reativar essas medidas ou substituí-las por outras ampliará a incerteza nos mercados, desestimulando investimentos. E os países que já fecharam acordos incluindo compromissos de comprar mais produtos americanos e investir nos EUA? Vão suspendê-los imediatamente ou deixá-los em banho-maria? E o Brasil, que nem concluiu as negociações com a Casa Branca? O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai visitar Trump em março, mas o americano não terá o trunfo do tarifaço para pressionar o brasileiro. Na prática, será uma desvantagem para Trump receber Lula nesse momento. Por enquanto, o saldo que o americano tem é de uma grande bagunça, que poderá causar sua derrota nas eleições parlamentares no fim do ano.