(José Cruz/Agência Brasil) A grande polêmica do setor de veículos no mundo é o crescimento acelerado da produção chinesa de carros eletrificados a preços baixos. A indústria do país asiático é acusada pelos concorrentes ocidentais de usar subsídios do governo, o que tornaria a disputa desleal. Por isso, os Estados Unidos e a União Europeia passaram a aplicar tarifas para encarecer o produto da China, uma medida que vai além da reserva de mercado. Com a formação de blocos desenhados pela geopolítica atual, de um lado a China e a Rússia se aproximando, EUA, Europa e países “confiáveis” (como Canadá e México) de outro, o Ocidente dificultou o acesso de Pequim à alta tecnologia. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Nos EUA, essa restrição acabou embutida na ideia de retomar a produção industrial de alguns setores importantes. Quando o custo fica inviável, as fábricas são instaladas nos aliados “confiáveis”. Parte dessa mudança tem relação com a pandemia, quando medidas sanitárias atrasaram o fornecimento de chips para a indústria, gerando desabastecimento que causou crise econômica, desemprego e inflação. Agora, na cabeça dos políticos, a globalização deve ter limites, com os suprimentos, inclusive de minerais, sendo garantidos por países parceiros. A tese ganhou reforço com a invasão da Ucrânia pela Rússia, com a sanção econômica se tornando uma arma importante. Ela não é eficiente, pois a Rússia conseguiu burlar o cerco e fazer comércio com a China e o Brasil, mas de qualquer forma impôs barreiras ao desenvolvimento russo. No caso do Brasil, os carros elétricos importados já pagam alíquota de 25%, que será ampliada gradualmente a 35% até 2026. Porém, as montadoras instaladas no País sentiram o impacto da entrada dos chineses. Conforme a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), no acumulado de janeiro a julho, a China exportou 62 mil automóveis ao Brasil, dos quais 59 mil são eletrificados. As montadoras instaladas no País estão preocupadas porque planejam fazer investimentos gigantescos por aqui, como produzir veículos com motores híbridos. Aliás, algumas fabricantes chinesas também estão se instalando no Brasil, o que logo pode gerar conflito com exportadores da própria China. O governo aposta no Programa Mover, que estimula a transição para automóveis mais sustentáveis. Mas antecipar a subida de alíquotas dos importados, pelo menos politicamente, não deve fazer sentido para o Palácio do Planalto. Isso porque a oposição tenta colar no ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a imagem de quem só pensa em aumentar impostos. De qualquer forma, mesmo com a reforma tributária, a atual gestão ainda não desenvolveu uma política industrial (não só para carros) que deixe o produto nacional mais competitivo, o que tem relação com carga tributária, formação educacional e burocracia. Muito se fala em revolução verde, mas sem foco no enfrentamento às deficiências mais básicas da indústria.