(Freepik) Os resultados mais recentes do Enade das Licenciaturas trazem uma mensagem que o Brasil não pode ignorar. Embora quase 900 cursos tenham alcançado conceito máximo, os números revelam um cenário preocupante para a formação de professores: cerca de um terço das licenciaturas avaliadas ficou nos conceitos 1 e 2, considerados insuficientes. Mais do que um retrato das instituições de Ensino Superior, os dados expõem um desafio estrutural que atravessa toda a cadeia educacional brasileira. A divulgação dos resultados ocorre em um momento estratégico, marcado pela reformulação do Enade e sua integração à Prova Nacional Docente. A intenção de elevar os padrões de qualidade na formação de futuros educadores é legítima e necessária. No entanto, qualquer análise séria precisa ir além da simples leitura dos conceitos obtidos pelos cursos. O debate sobre a qualidade das licenciaturas não pode ser reduzido a uma disputa entre instituições públicas e privadas nem a uma condenação automática de modalidades de ensino. Os próprios resultados mostram que as dificuldades são compartilhadas por todo o sistema. Mesmo entre as instituições públicas, parcela significativa dos cursos apresentou desempenho abaixo do esperado, demonstrando que o problema é mais amplo e complexo. Nesse contexto, merece atenção o alerta feito pelo Semesp. A entidade destaca que a qualidade da formação superior está diretamente relacionada a fatores que antecedem a entrada do estudante na universidade. As desigualdades sociais, as diferenças regionais e, sobretudo, as fragilidades acumuladas ao longo da educação básica influenciam decisivamente o desempenho dos futuros professores. A correlação entre os resultados do Enem e do Enade reforça essa constatação. Alunos que ingressam no Ensino Superior com melhor formação tendem a apresentar melhores resultados ao final da graduação. Por isso, avaliar exclusivamente a nota final obtida pelos concluintes pode produzir diagnósticos incompletos. É fundamental considerar também indicadores como o IDD (Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado), que mede a evolução do estudante ao longo do curso e a contribuição efetiva da instituição para sua formação. Outro aspecto que não pode ser desprezado é o papel desempenhado pela educação a distância na ampliação do acesso ao ensino superior. Em um país marcado por profundas desigualdades geográficas e econômicas, a modalidade permitiu que milhões de brasileiros ingressassem em cursos de graduação, especialmente em regiões onde a oferta presencial é limitada. O desafio, portanto, não é restringir o acesso, mas garantir que a expansão venha acompanhada de padrões cada vez mais elevados de qualidade. Os resultados do Enade não devem servir para apontar culpados, mas para mobilizar soluções. O País precisa de políticas públicas consistentes para a formação docente, de processos avaliativos cada vez mais qualificados e de uma articulação efetiva entre governos, instituições de ensino e sociedade.