O IPCA atingiu 4,83% em 2024, e o que mais contribuiu para esse resultado foi o aumento dos preços dos alimentos, que pesam no consumo das famílias mais pobres (Marcelo Cassal Jr./Agência Brasil) A inflação do ano passado, calculada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), traz importante carga política. O IPCA atingiu 4,83% em 2024, e o que mais contribuiu para esse resultado foi o aumento dos preços dos alimentos, que pesam no consumo das famílias mais pobres, reduto eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Esse componente ganha mais relevância ainda no segmento de carnes, que subiu 20% e foi responsável por 0,52 ponto percentual do IPCA. Para piorar, esses produtos, que tiveram em 2023 uma fase de arrefecimento do preço, concentraram seus aumentos no fim de 2024. Esse momento permite fazer uma comparação com os Estados Unidos, que assim como o Brasil tiveram um bom desempenho econômico em 2024, mas com uma percepção negativa do cidadão comum de que a situação não era tão boa assim devido à subida dos preços. No Brasil, isso tende a se acentuar com a concentração de renda. Os mais pobres gastam uma porção maior de seus ganhos com a alimentação e foi justamente essa cesta de consumo a mais inflacionada. Já a alta gasolina, mais sentida pela classe média, foi de 9,71% em 2024 (metade da média dos alimentos). São dados que interessam não apenas ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, mas também ao entorno do presidente Lula, de olho em 2026. A inflação teve motivos que não estão relacionados ao governo, como o clima. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável pelo IPCA, a estiagem piorou a entressafra das carnes, forçando o aumento de preços. O câmbio também colaborou, com valorização do dólar de 27% em 2024, pesando nos alimentos que dependem de importação, como a de trigo, ou de insumos (fertilizantes, no caso das plantações). Além disso, as carnes são commodities exportadas, portanto, com preços definidos no mercado internacional. Dessa forma, parte dos produtores pode optar pela exportação devido ao efeito cambial na hora de internalizar (trocar os dólares por reais) a receita de suas vendas. O aquecimento da economia também foi um dos principais componentes que levaram à inflação, pois a alta do Produto Interno Bruto (PIB) aumenta a demanda e pressiona os preços, fenômeno típico do crescimento em qualquer parte do mundo. É um bom problema, exceto quando se dá via estímulos. É como uma injeção de anabolizantes. O avanço vem rapidamente com recursos públicos pelo reajuste do salário mínimo (com reflexos na Previdência), empurrão nos programas sociais e represamento das tarifas ou preços das estatais. Mas essa transferência de renda impacta nas contas públicas, de tendência deficitária na história do País, piorada na pandemia e que explodiu agora. Com valorização do dólar, seca e chuvas e gastos públicos, a inflação trouxe de volta o aumento dos juros, erroneamente apontado por alguns como causa do rombo federal. Na verdade, é seu efeito.