Imagem ilustrativa (Freepik) A inadimplência com empréstimos bancários, que considera atrasos de mais de 90 dias, atingiu 4,2% no mês passado, conforme reportagem do jornal Valor Econômico. O resultado é o maior da série histórica calculada pelo Banco Central, iniciada em 2011. A piora desse índice não surpreende, com uma taxa Selic de 15% ao ano e de pelo menos dois dígitos em vigor há exatos quatro anos. Com o custo dos empréstimos nesse patamar, não há País que aguente. Se for ampliado o olhar sobre o impacto dos juros altos na economia, nota-se um número maior de notícias de grandes empresas em dificuldades para solucionar o endividamento e muitas vezes recorrendo à recuperação judicial. Mas o quadro mais preocupante é o das famílias. Metade tem dívidas, próximo do nível de julho de 2022. Tomar empréstimos não é necessariamente ruim, mas o que os analistas do mercado financeiro apontam é que os endividados, entrando em dificuldades, correm para o cheque especial ou o cartão de crédito, bem mais caros, entrando em uma bola de neve. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Para o BC, a maior parte do aumento da inadimplência está relacionada a uma resolução da própria autoridade monetária, que alterou o gerenciamento do risco do crédito pelas instituições financeiras, ampliando o prazo para dar baixa nas perdas com inadimplentes. Entretanto, não dá para dissociar o recorde dos 4,2% da relação com juros altos e famílias muito endividadas. Esse avanço tem a ver com a instabilidade da economia desde a década passada, intercalando recessão com baixo crescimento, o que causou desemprego e fechamento de empresas, levando aos calotes por falta de dinheiro. Por outro lado, ao longo dos anos, os governos utilizaram a ferramenta do estímulo ao crédito para fazer a economia girar. Mas com a volta da inflação mais de uma vez desde os anos 2010, o BC subiu a taxa Selic para domar a alta dos preços, com os juros mais altos pesando no saldo devedor, situação que mina a capacidade de consumo dos cidadãos e dos investimentos das empresas. A situação é tão complexa que nem mesmo o programa Desenrola, de renegociação de dívidas, surtiu o efeito esperado. Aparentemente muitos inadimplentes preferiram não assumir uma repactuação com parcelas devido à insegurança de não conseguir pagá-las. A iniciativa foi temporária, mas ela poderia ser reaproveitada agora, com o mercado de trabalho em situação muito melhor, com mais trabalhadores empregados. Os economistas esperam que a inadimplência média comece a cair conforme a Selic recue, a partir do próximo mês. Mas os juros básicos decrescentes não acabarão com o problema do endividamento e das dívidas atrasadas. Uma melhora considerável e por um longo período vai depender do bom comportamento da inflação, de um dólar barato e de um crescimento estável da economia. Este é o quadro que se delineia para o ano, mas em se tratando de Brasil nada está garantido.