Em 2007, durante o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil se tornou credor internacional, quando as reservas em recursos estrangeiros do Banco Central superaram a dívida externa. Porém, o endividamento voltou a crescer, chegando hoje a US\$ 407,1 bilhões, ultrapassando essa poupança do BC, de US\$ 402 bilhões, conforme reportagem do jornal O Estado de S. Paulo. Para economistas, a diferença de US\$ 5,1 bilhões não traz preocupação, pois o País continua atraindo muito capital global e o problema de falta de dólares para cobrir as importações e pagar juros ficou no passado. Contudo, a crise dos anos 1980, quando não se sabia se haveria dólar para comprar petróleo para o mês seguinte, não pode ser esquecida. Deve-se alertar que, de tempos em tempos, surgem palpiteiros defendendo o uso dessas reservas para ampliar os investimentos - ideia altamente inflacionária, que sacrificaria um colchão que tem garantido a estabilidade financeira do Brasil. A dívida externa não se restringe somente ao endividamento público. Inclui também a do setor privado, soma que precisa ser feita porque, na hora do pagamento, sairá moeda estrangeira do País. Na prática, o governo tem pouco débito lá fora. Sua fatia, que equivale a um quarto dos atuais US\$ 407,1 bilhões, é formada, na maior parte, por títulos emitidos em reais, negociados dentro do Brasil, mas que foram comprados por estrangeiros - isso porque eles terão que fazer o resgate e adquirir dólares para repatriar seu capital. Os outros três quartos são contraídos por empresas e bancos, que tomam capital externo também porque têm muitos negócios atrelados ao câmbio, como importações e exportações. Ao mesmo tempo em que o País precisa enviar muitos capitais ao exterior, também há muito ingresso de moedas estrangeiras. Principalmente por meio de um saldo comercial esperado de US\$ 84 bilhões para este ano, puxado pelo petróleo do pré-sal, agora o produto número um da pauta de exportações do Brasil. Há ainda a entrada de recursos no País para investimento direto na produção, o terceiro maior do mundo, atrás somente de Estados Unidos e China. Além disso, existe o investidor especulativo, interessado nos juros altos do País, mas que pode sair tão rápido quanto entrou - por outro lado, ele gera liquidez (fartos recursos disponíveis sempre que necessário). Em entrevista ao Estadão, o ex-presidente da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) Décio Odone diz que o Brasil enfrentou três desafios – dívida externa, inflação e gasto público. O primeiro foi resolvido com as exportações de minério de ferro e do agronegócio, enquanto o segundo foi controlado pelo Plano Real. Falta agora resolver a gastança do Estado, que ele diz ser o mais fácil dos três, por sua solução depender de disciplina. Portanto, o atual endividamento internacional do País precisa ser monitorado, sendo o ajuste fiscal o verdadeiro centro das atenções.