Sem a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a cúpula do Brics, em Nova Delhi, na Índia, teve pouca repercussão no Brasil. Espera-se que os diplomatas comerciais do Itamaraty tenham dado atenção ao encontro devido ao crescimento das exportações à Índia. Muito mais que China e outros países asiáticos, a nação indiana é a que mais ampliou as compras de produtos brasileiros, dobrando os valores em somente um ano. É possível que ela supere a Argentina como importadora do Brasil em pouco tempo. Entretanto, um dos assuntos da cúpula, que aparentemente Brasil e Índia não relevaram muito foi a retomada de alternativas para trocas comerciais entre países-membros, desconsiderando o dólar. Esse projeto é puro veneno na relação dos integrantes do Brics com os Estados Unidos, cujo presidente Donald Trump fez ameaças caso essa ideia saísse do papel. Problemas internos, como inflação e perda do poder aquisitivo nos EUA, devem ter acalmado Trump sobre esse aspecto, mas o republicano é imprevisível e pode tirar da cartola medidas como essa esquecidas. Para entender a polêmica da desdolarização do Brics é preciso analisar seus países-membros. A sigla é formada pela primeira letra de seus integrantes iniciais – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O Brasil foi contra a expansão do bloco, mas pesou a pressão chinesa. Agora participam Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Irã e Indonésia. Entretanto, isolados por sanções ocidentais, Rússia e Irã foram os que mais defenderam a integração dos sistemas de pagamento dos membros do bloco, almejando um comércio exterior sem dólar, segundo o jornal Valor Econômico. Os destaques foram o Pix e o indiano UPI. Enquanto o Pix, sem expandir sua estrutura para fora do País, realiza parcerias com aplicativos no Mercosul, Chile, Portugal, EUA e França, o UPI internacionalizou sua operação para onde há muitos indianos, como Singapura. Os dois modelos, com um total de 720 milhões de usuários, buscam acordos com outros bancos centrais. Já a União Europeia prepara um projeto-piloto, inclusive com conexão com o Pix. Isso tende a isolar a posição da Casa Branca, que acusou o Pix de fazer parte das práticas desleais contra empresas americanas, em referência a cartões de crédito. Na prática, o que se teve foi um aumento da bancarização estimulada pelo Pix, inclusive com o efeito colateral de fácil acesso a linhas de crédito, estimulando a inadimplência. O Brics é visto com descrédito, inclusive no Brasil, como ferramenta para ampliar o comércio. Mas os números mostram que vender para asiáticos é um excelente negócio para os brasileiros, com EUA, França e Alemanha perdendo espaço para Índia e Vietnã, e o País aproveitando o ambiente de inovação dos países do Brics. Falta o Brasil potencializar seu crescimento, cortando gastos para reduzir juros e estimulando o ensino e investimento em infraestrutura. Assim crescerá mais rapidamente.