(Kamil Krzaczynski / AFP) A decisão do presidente americano Donald Trump de retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris preocupa pela possibilidade da medida ser tomada por outros países. Esse temor já é realidade no meio corporativo. Assim como algumas gigantes da tecnologia começaram a desativar programas de verificação de conteúdo ou de diversidade, grandes bancos e gestores de ativos dos Estados Unidos passaram a abandonar as redes de ação climática, conforme publicou nesta quarta-feira (22) o jornal O Estado de S. Paulo. Parte dessas instituições integrava a Net Zero Banking Alliance, cujos associados agora são em sua maioria europeus. Questionados, esses grupos dizem que continuam a apoiar os clientes com metas de sustentabilidade. Já a Aliança de Glasgow, que reúne grandes executivos com preocupação ambiental, alterou as regras para manter as empresas envolvidas, diz a reportagem. A impressão que se tem é que a adesão anterior era influenciada pela busca da preservação da imagem frente à sociedade e à pressão política. Com Trump, esse freio perdeu força. Cada instituição cuida de sua imagem como acha que deve, lembrando que, se está dentro da lei, há liberdade para isso. O problema é que esse movimento concentrado nos EUA tende a se espalhar pelo mundo por sua influência ou por questão de concorrência. O empresário brasileiro ou europeu pode se ressentir de investir em medidas ambientais, de custo extra, enquanto seus concorrentes adotam práticas desconectadas com as necessidades do planeta. Não investir em políticas ambientais é da maior gravidade, pois as mudanças climáticas não têm lado político – elas são devastadoras e os fatos recentes corroboram para isso. Como as chuvas e enchentes incessantes por mais de um mês no Rio Grande do Sul, incêndios fora de época na Califórnia, tempestades com alagamentos nas cidades dos desertos, ao sul do Saara. E muita seca. Um exemplo bem simples é o da disparada do preço do café, relacionada a safras castigadas pelo clima no Brasil e no Vietnã, e da queda de produção do cacau causada pelo calor no ano passado em Costa do Marfim e Gana, na África Ocidental. Ainda no Brasil, houve perdas com a soja, um dos motivos da queda do saldo comercial brasileiro. Calor, seca, chuvas, furacões e nevascas já ocorriam, afirmam os negacionistas, mas com o aquecimento do clima esses fenômenos ficaram mais agressivos ou passaram a ocorrer fora de época. O Acordo de Paris prevê a limitação do aquecimento do planeta a 1,5°C em relação às temperaturas da era pré-industrial, no século 19. Segundo cientistas, esse teto tem sido superado e vai caminhar para 3°C ou mais, uma tragédia, pois é uma média, e isso significa que em algumas regiões a alta será bem maior que isso. O problema do retrocesso das políticas ambientais é o perigo do ponto de consolidação das tragédias climáticas, e desse novo padrão não será possível voltar para níveis suportáveis à vida no planeta.