(Agência Brasil ) Resistente a combater o rombo fiscal, tema de árido entendimento para a população, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva elegeu a inflação dos alimentos como prioridade para este começo de ano. Na semana passada, o petista convocou reuniões de sua equipe para apontar soluções para a alta dos preços, o que suscitou temores de intervenção no mercado, descartada pelo governo. Na sexta-feira, decidiu-se reduzir as alíquotas de importação de alguns desses produtos para barateá-los. Os alvos preferenciais serão carne, café, açúcar, laranja e óleo de soja. São produtos vistos com muita sensibilidade por Lula, lembrando que a picanha esteve no centro de suas campanhas eleitorais. A conclusão é de que alguns alimentos estão mais caros do que seus preços no mercado internacional, o que justifica a redução do imposto de importação. Após muitas dificuldades do Governo Federal para comprar arroz do exterior, o ministro da Casa Civil, Rui Costa, descartou medidas criativas. Há três motivos para a alta dos preços dos alimentos, começando pelo aumento da demanda devido à correção do salário mínimo acima da inflação, com impacto direto nos benefícios sociais, e à geração forte de empregos. A subida do dólar no ano passado, de 27%, também foi uma das causas, apesar de seu impacto não ser imediato. A influência do câmbio também se dá via combustíveis, mas a cotação do petróleo ficou estável no ano passado (-3%). Por último, o clima prejudicou a oferta, como a do café, com seca no Brasil e Vietnã – o grão da bebida saltou 70% em 2024. Excetuando-se o impacto climático, o governo não pode se considerar surpreendido, pois a injeção de verba pública na economia forçou alta mais vigorosa do consumo. No ano passado, a inflação fechou em 4,8%, acima da meta de 4,5% do Banco Central. Mas há outra ‘pegada’ da gestão Lula nesse contexto inflacionário, que é a das contas públicas, que gera desconfiança no mercado, causando elevação dos juros e da moeda americana. A estratégia do governo de desaquecer os preços dos alimentos talvez tenha um olho no fiasco eleitoral democrata, nos Estados Unidos. Durante o Governo Biden, a economia cresceu vigorosamente, mas a inflação, que ficou adormecida quatro décadas, voltou e corroeu o poder aquisitivo dos americanos. Há um paralelo no Brasil, com o eleitorado, pelo menos no radar das redes sociais, ignorando resultados positivos, como oferta de emprego, sentindo o baque nos supermercados em pleno Natal. Para piorar, a população continua seriamente endividada, apesar da recuperação do emprego. Aliás, as empresas também têm muitas dívidas. É o reflexo dos juros altos, inflando o saldo devedor. Portanto, não basta investir apenas na publicidade das realizações federais. É preciso convencer a sociedade de que haverá um ajuste nas contas públicas, pois os problemas do País não serão resolvidos com paliativos, como baratear as importações de alguns alimentos.