(Reprodução Instagram/Donald Trump) Ao declarar o fim da trégua com o Irã, o presidente americano Donald Trump mostrou ao mundo que o cessar-fogo, com pretensão a se tornar um sólido acordo de paz, foi um improviso. Aliás, que serviu a ambos os lados. O republicano, com baixo índice de popularidade e uma ação externa que contraria sua promessa de campanha, precisava reverter os danos à imagem de seu governo e evitar uma derrota nas eleições em 3 de novembro. Já o Irã tentava ganhar tempo para juntar os cacos, após severos bombardeios. Mas o regime descobriu o poder que tem em mãos ao fechar o Estreito de Ormuz, conseguindo barganhar com Trump. O fracasso previsível do frágil cessar-fogo começou há alguns dias, quando o Irã atacou navios comerciais que passaram pelo outro lado do estreito, próximo a Omã. Os EUA retaliaram, com o Irã revidando. Em sequência, o americano autorizou ações mais violentas e anunciou na cúpula da Organização Tratado do Atlântico Norte (Otan, aliança militar do Ocidente), em Ancara, na Turquia, que a trégua havia acabado. Porém, foi dúbio ao dizer que o conflito não deve ser reiniciado. Dessa forma, Trump repetiu o que tem feito em todo seu governo, tanto na área militar quanto na econômica e política, de ameaçar, às vezes por seu plano em prática, e depois fechar um acordo mais favorável. Fez isso na Venezuela, teve sucesso, e supôs que assim seria no Irã, há tempos abalado economicamente, com o americano imaginando que o regime não resistiria a duros bombardeios. Entretanto, Teerã rapidamente recompôs seu alto escalão. Inclusive, mostrando que não tem preocupação com o destino do país, mas com a sustentação do governo, autoritário, como demonstrou ao executar milhares de manifestantes meses atrás. É possível que realmente a guerra não seja retomada, pois ambos sofreram e não querem voltar às armas. O Irã, entretanto, tenta consolidar o controle do Estreito de Ormuz, enquanto os EUA, se estacionarem suas forças por lá, provavelmente enfrentarão uma chuva de drones, guerrilha eficiente, como a Ucrânia tem demonstrado contra a Rússia. Como o regime é radical em sua essência, é provável que ataques pontuais sejam trocados pelo Irã e EUA daqui para frente, sem vislumbrar um vitorioso. O problema é que a região tem importância política e o petróleo, apesar de ter perdido parte de seu peso econômico, ainda tem força para disseminar inflação pelo mundo. Nesse ritmo, a economia mundial continuará exposta à volatilidade que essa crise provoca. Há décadas, presidentes americanos evitavam se meter numa confusão com o Irã, porque era evidente que seria difícil sair dela. Trump, no auge da sua soberba, decidiu cair na conversa no israelense Benjamin Netanyahu e partiu para o ataque. Agora, a Casa Branca busca uma solução para uma crise que poderá durar muitos anos, talvez sem impedir que Teerã retome o projeto da bomba atômica.