(FreePik) Nos últimos anos, a descarbonização do transporte marítimo deixou de ser uma pauta setorial para se tornar uma corrida global. Regulamentações da Organização Marítima Internacional (OMI) definiram metas ambiciosas, exigindo redução substancial das emissões até 2030 e uma busca pela neutralidade de carbono em 2050. O novo cenário molda o futuro da navegação e o Brasil, como potência marítima e exportadora, precisa definir seu papel nessa transição. Armadores internacionais reagem rapidamente a essa transformação. Países como Dinamarca e Japão já adotam novos combustíveis, como metanol verde e hidrogênio, e investem em tecnologias avançadas, incluindo motores híbridos e sistemas de energia eólica integrada. Grandes empresas do setor já encomendaram navios movidos a metanol verde. Contudo, essa revolução tecnológica exige mais do que mudanças nos navios. A infraestrutura portuária também precisa evoluir para suportar novos combustíveis e permitir operações mais eficientes e sustentáveis. O Brasil está preparado para essa transição? O País possui vantagens competitivas importantes: riquezas naturais e recursos renováveis. Domina a produção de etanol e tem grande potencial para expandir sua capacidade de biocombustíveis, além do crescente investimento em energia eólica offshore. No entanto, ainda enfrentamos desafios estruturais significativos. A questão central não é apenas a disponibilidade de novos combustíveis, mas a falta de integração entre políticas públicas e investimentos privados. O governo e a Marinha têm debatido um plano nacional de transição para a frota marítima, mas ainda estamos atrasados em relação a outros países. A execução das mudanças segue em ritmo lento. Um ponto polêmico: as metas de descarbonização são realmente alcançáveis no Brasil ou estamos subestimando os desafios? O custo da adaptação aos armadores brasileiros é elevado e muitos estão presos em uma armadilha regulatória. Precisamos cumprir exigências globais, mas nossa infraestrutura e o apoio governamental ainda não acompanham a urgência dessa transição. Se olharmos para uma linha do tempo realista, uma estratégia escalonada pode ser a melhor solução. Nos próximos cinco anos, o Brasil pode focar na adaptação gradual, investindo primeiro em combustíveis de transição, como GNL, e na modernização das embarcações atuais com tecnologias mais viáveis e acessíveis. A partir de 2030, a migração para soluções mais sustentáveis, como hidrogênio verde e metanol, pode se tornar viável, desde que a infraestrutura necessária também evolua. O grande desafio é garantir que o País não fique para trás nessa corrida global e haja uma abordagem pragmática que respeite suas particularidades. É fundamental um plano nacional estruturado, que considere as diferentes etapas do processo e ofereça suporte a armadores e operadores portuários. Se adotarmos um modelo estratégico e sustentável, poderemos não só cumprir as metas ambientais, mas também fortalecer a competitividade do Brasil no comércio marítimo global. A transição energética é um desafio inevitável – cabe a nós decidir se seremos protagonistas ou espectadores dessa mudança. *Presidente da Federação Nacional das Agências de Navegação Marítima (Fenamar)