(Cláudio Neves/ Divulgação) Sendo bem direto, a verdade é que milhões de dólares são perdidos todos os anos nos portos brasileiros porque ainda não tivemos a capacidade de implantar o Port Community Systems (PCS). A conclusão vem da leitura do relatório Port Community Systems-Lessons From Global Experience, publicado em 2024 pelo Banco Mundial em conjunto com a International Association of Ports and Harbors (IAPH), o maior diagnóstico já produzido para esse tema, que analisa os resultados de 40 anos da adoção de PCS pelo mundo. O estudo analisou a implementação de Port Community Systems em 897 portos, cobrindo 201 países e territórios. A conclusão é direta. A grande maioria dos PCS opera em portos de países desenvolvidos, de alta renda, onde o nível de maturidade da sociedade já permite distinguir o que é competição e onde é necessária a colaboração para o benefício de todos. Por outro lado, 90% dos portos presentes nos países de média e baixa renda nem começaram a implantação dessas plataformas, o que é o caso do Brasil, que ainda engatinha na implantação do Port Community Systems, embora tenhamos sido apresentados ao tema em 2018, quando recebemos graciosamente um projeto financiado pelo fundo de prosperidade do Reino Unido. Dessa forma, milhares de dados operacionais transitam diariamente entre os atores da cadeia logística portuária de forma replicada, com validações manuais; a eficiência operacional dos portos não é alcançada porque não é possível antecipar informações que habilitem o planejamento e eliminem tempo ocioso; e a própria eficiência da máquina pública é prejudicada, exigindo uma quantidade maior de inspeções físicas e a aplicação de multas por falta de conformidade. Enquanto os países desenvolvidos já entenderam que o PCS não substitui os sistemas existentes (TOS, PMS, WMS, Single Window aduaneiro), conectando o que já opera e que a governança neutra é o que garante a credibilidade da comunidade, nos países subdesenvolvidos grande parte da energia ainda é dispersada pela preocupação de que determinado stakeholder capture para si o protagonismo da solução. Além disso, os principais decisores não se engajaram na discussão e não perceberam o caráter estratégico e o impacto financeiro por trás da implantação do PCS. Acreditam que se trata de uma matéria a ser discutida pelo “pessoal da TI”. A questão é de maturidade da nossa sociedade. Estamos acostumados a ter sempre alguém mandando em tudo e quando isso não existe ficamos perdidos. É como diz aquele ditado popular: cachorro com muito dono morre de fome. O problema está posto: como começaremos nossos PCS? Será uma política pública? As autoridades portuárias assumirão a liderança neutra, sem se imporem como ente superior em um ambiente colaborativo? Ou a própria sociedade organizada vai atingir um nível de maturidade que permita a organização de uma comunidade colaborativa, mesmo num ambiente altamente competitivo?