Recado “Desculpe-me, senhora, se escrevi carta tão longa. Não tive tempo de fazê-la curta.” Voltaire O novo coronavírus sofre de incurável falta de criatividade. Impôs rotina única para todos. Grandes e pequenos, altos e baixos, brancos e negros, pobres e ricos precisam ficar em casa. Além de tocar o samba de uma nota só, o mal-amado tem complexo de Deus. Atingiu os moradores dos cinco continentes. Resultado: sobra tempo. E daí? O jeito é dar um jeito. Aí, o vírus não apita. Alguns tricotam, bordam, fazem crochê. Outros reformam roupas, arrumam gavetas, organizam armários. Há também os que se informam. Veem tevê, ouvem rádio, leem jornais. E, como o dia ficou mais comprido, prestam atenção ao texto e à fala. Ficam curiosos. E mandam questões pra coluna. É guerra O presidente do Banco Central disse que “temos um arsenal para combater a crise”. Edileusa ouviu a frase. Ficou encucada. “Arsenal não se refere a armas?”, pergunta. É nesse sentido que a palavra foi empregada. Como estamos em guerra contra o coronavírus, Roberto Campos Neto recorreu a vocábulo que tem tudo a ver. Desperdício Samanhtha Queirós observa: “Ao se referir à pandemia, gregos, troianos e romanos dizem que o vírus atinge todos os países do mundo. É pleonasmo, não?” Dessssssssssssssssssste tamanho. Ganha um bombom Godiva quem encontrar um país que não seja do mundo. Basta país: O vírus atinge todos os países. Eu sou mais eu João Moreira Coelho leu na primeira página do Correio esta chamada: “Mandetta se sobressai”. Surpreendeu-se. Com razão. O verbo sobressair joga no time dos autossuficientes. Acredita que é melhor andar só que mal-acompanhado. Daí por que não aceita jamais a companhia dos pronomes me, te, se, nos, vos. Para sobressair, empregue o sobressair assim: Mandetta sobressai. Os formandos sobressaíram na pesquisa. Os alemães sobressaem no combate ao coronavírus. Eu sobressaio na defesa dos servidores. Sobressaia no trabalho, na família e na vida. Criatividade? Bolsonaro dava entrevista. Estava tenso. Num momento de descontração, resolveu brincar. Disse que a imprensa inventa brigas “entre eu e o Moro, entre eu e o Mandetta”. A Neusa ouviu. Duvidou dos próprios ouvidos. Mais tarde, assistiu à reprise da fala. Era verdade. “Xô! Xô! Xô”, gritou ela. Explica-se a reação. A moça aprendeu na escola que o pronome eu não tem vez quando antecedido de preposição. Ora, entre é preposição. Dá passagem ao pronome mim. Veja exemplos variados: Gosta de mim. Trabalha para mim. Falou sobre mim. Inventa brigas entre mim e o Moro, entre mim e o Mandetta. Ops! João e Rafa leram esta frase: “Em todo o mundo, todo mundo sofre os efeitos da pandemia”. O jogo de palavras os deixou confusos. Pediram explicação. Ei-la: Todo mundo = todos Todo o mundo = todos os países, o mundo inteiro Leitor pergunta Outro dia, o telejornal Hoje, ao noticiar a autorização para atendimentos médicos a distância, a telinha mostrou “à distância”. Bobeou, não? Roberto Barreto, Ipatinga A locução a distância só ganha o acentinho indicador da crase quando a distância for determinada. Compare: Viu Luciana a distância. Viu Luciana à distância de uns 200m. A escola oferece ensino a distância. Com a crise, estou trabalhando a distância. Autoridades sanitárias recomendam: fique à distância de 1 metro.