Recado “Para ter lábios atraentes, diga palavras doces.” Audrey Hepburn A língua é feita de palavras. Língua e palavra têm um denominador comum. São femininas e, por isso, plenas de poder. Como as bruxas medievais e as feiticeiras modernas, fazem e acontecem. Montadas na vassoura, voam, criam, recriam. E conjugam todos os verbos. A coluna lembra seis. Assine A Tribuna agora mesmo por R\$ 1,90 e ganhe Globoplay grátis e dezenas de descontos! Um Conversar é um deles. A língua adora bater papo. E, no vaivém de histórias, incorpora palavras de outros idiomas. É o caso de Páscoa. Hebraica, a trissílaba quer dizer passagem. É tão antiga como Adão e Eva. Bem antes de Moisés vir ao mundo, os pastores nômades comemoravam a Páscoa. Cantavam e dançavam pela despedida do inverno e a chegada da primavera, quando a neve se ia, os campos se cobriam de pastagens e os alimentos abundavam. Mais tarde, os judeus começaram a festejar a Páscoa. Lembravam, com sacrifícios, a saída do povo de Israel do Egito. Era a passagem da escravidão para a liberdade. Em 325, os cristãos instituíram a Páscoa. Com ela, exaltam a ressurreição de Cristo — a passagem da morte para a vida. Dois Brincar é outro verbo. A língua subverte sentidos. O autor diz uma coisa, o ouvinte entende outra. Vale lembrar o caso daquele chefe que todos os dias filava cigarro do empregado. Ora, com o preço do maço na hora da morte, o subordinado puxou esta conversa: — O senhor fuma muito, não? — É. Fumo, mas não trago. — Pois devia trazer. Três Economizar tem lugar cativo no léxico. A língua detesta desperdício. Por isso, odeia redundância. Pleonasmo? Nem pensar. Conhece a história de Benedito Valadares? O então governador de Minas foi ao Rio visitar Getúlio Vargas. Antes, passou pela sala de Gustavo Capanema. Ao vê-lo de óculos escuros, o ministro da Educação lhe perguntou: — O que é isso, Benedito? — É conjuntivite nos olhos. Getúlio repetiu a pergunta: — Os médicos lá de Minas disseram que é conjuntivite nos olhos. Mas o Capanema, que pensa que sabe mais que os médicos, disse que é pleonasmo. Quatro Renovar é obsessão. A língua adora mudar. Com razão, né? Já imaginou usar o mesmo vestido dia após dia, mês após mês, ano após ano? Cansa. Com a língua ocorre o mesmo. Expressões surpreendem quando nascem. Depois, de tanto ser repetidas, perdem o frescor. Quem já não disse “não ficará pedra sobre pedra”, “nem só de pão vive o homem”, “este mundo é um vale de lágrimas”, “a carne é fraca”? Pois saibam. Esses chavões são verdades enunciadas no Novo Testamento. Cristo é testemunha. Cinco Vingar permanece em cartaz. A língua não leva desaforo pra casa. Mal colocada, revida. O negócio de um cabeleireiro ia de vento em popa. Mas ele queria aumentar a freguesia. Contratou um marqueteiro, pintou e exibiu esta placa: “Corto cabelo e pinto”. Os fregueses sumiram. As freguesas, solidárias, também. Alertado, ele trocou a ordem: “Pinto e corto cabelo”. O negócio prosperou. Seis Criar, procriar, dar à luz filhos e filhas é mandamento. Manuel Bandeira tinha uma amiga que não gostava do próprio nome — Teodora. Pra agradá-la, ele a presenteou com o poema chamado Neologismo: Falo pouco Beijo menos ainda Mas invento palavras. Inventei o verbo teadorar. Intransitivo. Teadoro, Teodora Leitor pergunta Estou com duas dúvidas sobre os números. A primeira: é obrigatório o uso do h antes da escrita de números que indicam valores? A segunda: coloca-se vírgula entre as unidades? João Rafael, Boa Vista Como diz o esquartejador, vamos por partes: 1. Há quem, por segurança, use hum em lugar de um no preenchimento de cheques. Com isso, evita falsificações. Não é obrigatório, nem proibido. Aceita-se: hum mil e quinhentos reais. 2. Na escrita dos números, a vírgula não tem vez: R\$ 1.278,33 (mil duzentos e setenta e oito reais e trinta e três centavos).