[[legacy_image_268299]] “Quem não lê, aos 70 anos, terá vivido só uma vida: a sua. Os que leem terão vivido 5 mil anos. Ler é uma imortalidade de trás para a frente.” (Umberto Eco) O lançamento do ChatGPT provocou um auê no mundo. Rápido e multivalente, ele conversa com a pessoa. A gente faz uma pergunta sobre qualquer assunto. O algoritmo responde com texto escrito em português correto. Embarquei na aventura. Apresentei três perguntas de língua portuguesa ao ChatGPT. Uma sobre a conjugação do verbo falir. Outra sobre vírgula. A última sobre crase. Surpresa! Ele acertou uma pela metade e errou duas. Verbo falirO ChatGPT errou no presente do indicativo. Em vez de conjugar o verbo falir, apresentou as formas do verbo falhar. Trocou as bolas. Nada feito. A forma nota 10Falir é defectivo. Só se flexiona nas formas em que não se confunde com falar. São aquelas em que aparece o i depois do l. No presente do indicativo, apenas o nós e o vós têm vez (falimos, falis). O presente do subjuntivo não existe. Os demais tempos conjugam-se normalmente: fali, faliu, falimos, faliram; falia, falia, falíamos, faliam; falirei, falirá, faliremos, falirão; faliria, faliria, faliríamos, faliriam; falindo; falido. SubstitutoAs formas inexistentes podem ser supridas. O verbo quebrar é uma saída. A expressão abrir falência, outra. A vírgulaA segunda questão apresentada ao ChatGPT perguntou se pede vírgula a frase “O ex-presidente da República José Sarney mora em Brasília”. A resposta foi correta — não. Mas a explicação não explicou. Disse que o período não pede a bengalinha porque está escrito na ordem direta. A razão é outra. O porquêA língua é um conjunto de possibilidades. Flexível, a danada detesta monotonia. Oferece vários jeitos de dizer a mesma coisa. Veja:O aluno estudioso tira boas notas. O aluno que estuda tira boas notas. As frases dizem que há alunos e alunos. Não é qualquer um que tira boas notas. Só chega lá quem se debruça sobre os livros. Numa, o termo restritivo é adjetivo (estudioso). Noutra, oração adjetiva (que estuda). O tratamento mantém-se. Nada de vírgula. Outro timeO adjetivo nem sempre limita o sentido do substantivo. Às vezes, explica. Veja: O homem, mortal, tem alma imortal. O homem, que é mortal, tem alma imortal. Os períodos não dizem que há homens mortais e homens imortais. Mas que todos são mortais. Como saber? A vírgula, indiscreta, denuncia. De volta à vaca friaA questão proposta ao ChatGPT joga no time das restritivas e explicativas. Ao dispensar a vírgula na frase “O ex-presidente da República José Sarney mora em Brasília”, dizemos que há mais de um ex-presidente. E há. Collor, Fernando Henrique, Temer, Bolsonaro servem de exemplo. Por isso, o período não pede vírgula. Se há um só presidente da República, o nome torna-se explicativo. Exige o sinal de pontuação: O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, foi eleito em 2022. VirtudesLembra-se do recado de Montaigne? “O estilo”, diz ele, deve ter três virtudes: clareza, clareza, clareza”. Saber identificar o termo explicativo e restritivo não constitui só problema de correção. Muitas vezes, afeta a clareza. PegadinhaEsta cilada caiu no vestibular:Os cinco filhos de José que chegaram do Rio estão no hotel. A questão: quantos filhos tem José?( ) Tem cinco. ( ) Tem mais de cinco. E agora?Quem responde é a oração. Restritiva ou explicativa? Sem vírgulas, é restritiva. Então José tem mais de cinco filhos. Se fossem só cinco, “que chegaram do Rio” estaria cercadinha de vírgulas. A craseSobra assunto. Mas falta espaço. O terceiro tropeço do ChatGPT será assunto da próxima coluna. Leitor perguntaSegmento ou seguimento? A turma confunde sempre.Paulo José Cunha, Brasília (DF)Segmento é parte de um todo. Seguimento é o substantivo derivado do verbo seguir: O gabinete do senador foi tomado por líderes de diversos segmentos sindicais. Em seguimento à exposição, falará o coordenador do projeto.