Recado “Saudades, só portugueses conseguem senti-las bem porque têm essa palavra para dizer que as têm.” Fernando Pessoa Denúncias de corrupção pululam Brasil afora. Maus-feitos passados e presentes vêm à tona. No lamaçal sem fim, um fato chama a atenção – o envolvimento da primeira-dama no desvio do dinheiro público. O Rio é campeão com duas protagonistas. Amazonas e Piauí com uma. Elas viraram notícia. Vale, pois, uma diquinha. O plural de primeira-dama é primeiras-damas. Mistérios do ex A denúncia mais recente atinge a mulher do governador do Piauí. Ao falar no assunto, apresentador da CNN disse que Wellingthon Dias “foi ex-senador da República”. Ops! Bobeou. Wellington Dias foi senador da República. Melhor: O governador do Piauí, Wellington Dias, foi senador da República. Campeões Sabia? Piauiense e tuiuiú são as palavras que reúnem o maior número de vogais em sequência da língua portuguesa. As de piauiense são as mais variadas. Jeitinho de pedir A pandemia fez estragos. Um deles: destruiu milhões de empregos. O desafio agora é criar postos de trabalho País afora. O governador do Maranhão teve uma ideia que virou notícia. A imprensa divulgou: “Flávio Dino pede que Bolsonaro lidere pacto pelo emprego”. Será atendido? Se depender do emprego do verbo, a resposta é sim. A chave está no pedir que e pedir para. As duas construções parecem irmãzinhas. Mas não são. Quilômetros de distância as separam. Pedir para esconde a palavra licença: O filho pediu ao pai (licença) para pegar o carro. O aluno pediu (licença) para sair mais cedo. Pedir que é solicitação, não licença: Flávio Dino pede que Bolsonaro lidere pacto pelo emprego. O chefe pede aos empregados que aguentem o arrocho salarial. O pai pediu ao filho que ficasse em casa. Sobre a língua “A língua fala por si. A importância de tratar da língua seja através dos museus, dos programas, dos acordos ortográficos, seja através dos processos de liberalização das falas novas, a língua é importante. A língua é nossa mãe.” (Gilberto Gil) Barbas de molho “Bolsonaro adora um bate-boca”, disse Alexandre Garcia. Verdade? Fantasia? Seja lá o que for, manda a prudência ter o plural da duplinha na ponta da língua. Bate-boca joga no time de guarda-chuva, porta-retrato, arranha-céu e beija-flor. As palavras são formadas de verbo + substantivo. Nesse time, só o último elemento se flexiona: bate-bocas, guarda-chuvas, porta-retratos, arranha-céus, beija-flores. Curiosidade De onde vem o nome do sanduíche adorado pelos americanos? Vem da Alemanha. Marinheiros de Hamburgo aproveitaram velha receita de povos nômades da Ásia e Europa oriental. Eles comiam carne crua cortada bemmmmmmmmm fininha. Os hamburgueses avançaram um passo — cozinharam a iguaria. Imigrantes que partiam do porto de Hamburgo levaram a delícia para a terra do Tio Sam. Os americanos gostaram da novidade. Mas, ao ver o bolinho desamparado no prato, deram outro passo. Casaram-no com o pão. Viva! Ficou tão bom que eles não comem só um. Daí o plural hambúrgueres. Leitor pergunta Há diferença entre diretor de secretaria e diretor da secretaria? Samantha Lopes, Recife (PE) Há. O xis da questão está no artigo (da = de + a). O artigo definido dá precisão ao objeto. Se digo “traga os livros”, não me refiro a quaisquer livros. Mas a livros específicos. Se, ao contrário, digo “traga livros”, me refiro a quaisquer obras. Diretor de secretaria é diretor de qualquer secretaria. Diretor da secretaria é de determinada secretaria: Ele será nomeado diretor de secretaria. Ele será nomeado diretor da Secretaria de Assuntos Econômicos.