Há um momento em que uma instituição decide deixar de apenas nomear um problema e passa a construir, deliberadamente, o caminho para superá-lo. Foi esse o espírito que nos moveu, na Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), ao lançar o Guia de Incentivo à Liderança Feminina no Setor Aquaviário - Navegando Juntas. Ele nasce como continuidade natural do nosso Guia de Enfrentamento ao Assédio no Setor Aquaviário, afinal, primeiro, era preciso garantir ambientes seguros; agora, o desafio é garantir que, nesses ambientes, as mulheres possam ressignificá-los. O simbolismo é evidente. Estamos falando de um setor historicamente construído por e para homens - portos, hidrovias e terminais que movimentam bilhões de dólares e sustentam cadeias produtivas inteiras, mas onde as mulheres ainda representam apenas 17,8% dos empregos e 15% dos cargos de direção no Brasil, segundo dados da própria Antaq. Números praticamente idênticos aos da média mundial, apontada pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). Isso revela que a sub-representação feminina não é peculiaridade nacional: é um fenômeno estrutural e global, que exige resposta estrutural. Mas por que isso deveria importar para quem pensa desenvolvimento econômico, e não apenas justiça social? Porque a evidência é inequívoca. Estudos do McKinsey Global Institute mostram que empresas com maior diversidade de gênero na liderança têm 25% maior probabilidade de obter rentabilidade acima da média do setor. Pesquisas do Peterson Institute for International Economics, com quase 22 mil empresas em 91 países, indicam que organizações com pelo menos 30% de mulheres em posições de liderança apresentam margens de lucro líquido até 15% superiores. E o trabalho não remunerado das mulheres - que sustenta silenciosamente a economia global - foi estimado pela Oxfam em ao menos US\$ 10,8 trilhões anuais, três vezes o tamanho da indústria de tecnologia mundial. Ignorar esse potencial não é neutralidade: é desperdício sistêmico de competência. É exatamente essa lógica que conecta nossa iniciativa à Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), particularmente ao Objetivo do Desenvolvimento Sustentável (ODS) 5.5, que estabelece o compromisso de garantir participação plena e efetiva das mulheres em todos os níveis de tomada de decisão. A igualdade de gênero, mais do que pauta de direitos humanos, é reconhecida como motor de inovação e crescimento - e se conecta diretamente aos pilares Social e de Governança dos princípios ESG, que hoje orientam a governança pública e corporativa em todo o mundo. Por isso, o Guia não se limita a diagnosticar barreiras - o “teto de vidro”, o dilema do duplo vínculo, o viés da maternidade, ou o broken rung, que barra a ascensão feminina já no primeiro degrau de gestão. Ele aponta caminhos concretos: metas mensuráveis, auditorias salariais, programas estruturados de mentoria e, sobretudo, patrocínio ativo - a diferença entre alguém que aconselha e alguém que abre portas. É também um convite explícito aos homens, na perspectiva do movimento HeForShe: equidade não se constrói sozinha. Lançar este guia num momento em que o País registrou aumento de 25% na taxa de feminicídio em relação ao ano anterior não é coincidência - é urgência. Fortalecer lideranças femininas dentro das organizações é também parte de um projeto civilizatório mais amplo: transformar realidades dentro e fora dos muros institucionais. Que este material seja bússola, não apenas espelho. Que inspire diálogo, ação contínua e a certeza de que um setor aquaviário mais equitativo é, sobretudo, um setor mais preparado para os desafios do século 21. Navegar juntas é metáfora para uma rota estratégica do futuro necessário.