<p class="p-smartimagebox"><img attr-cid="policy:1.446049" attr-version="policy:1.446049:1735592292" class="p-smartimage" src="/image/policy:1.446049/WhatsApp Image 2024-12-30 at 17.57.36.jpeg?f=3x2&w=400&q=0.3" /><br /> <span class="p-smartcaption">(FreePik)</span></p> <p data-end="84" data-start="50">É, você já viu de tudo nesta vida.</p> <p data-end="1598" data-start="88">Viu o dia virar noite, desvirar e o galo cantar por engano. Viu tico-tico dar carreirão em tucano. O sol se pôr de um lado enquanto a lua nascia do outro. Reencontrou anos depois o primeiro amor, e nenhum dos dois reconheceu o encanto. O pai apareceu para você de madrugada, no quarto, feito um espectro. Viu siris disputando toca. Deitou-se no asfalto quente da estrada olhando o céu à procura do Halley. Misturou vodca, cachaça e vermute. Levou tombo de cavalo quando ele se assustou com o voo de um bando de rolinhas estabanadas. Quebrou mão, pé e 48 copos. Já perdeu o sono noites seguidas por um problema de perder o sono, mas que hoje nem lembra qual era. Viu um sujeito desabar à sua frente, na calçada, mortinho da silva. Uma criança se sentir segura pelo simples fato de você estar ali. Trocou umas palavras com Fernando Sabino, <span class="hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline">Paulinho Nogueira</span> e <span class="hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline">Roberto Dinamite</span>. Assistiu a um mesmo filme três sessões seguidas. Presenciou com horror um novilho ser abatido, desossado e nem assim deixou de comer carne. Já fingiu ser inglês em Évora e carioca em Mococa. Espirrou em um casamento bem na hora do ‘sim’. Sentiu algo estranho quando enfiou o pé na bota, tirou-a, chacoalhou no ar e caiu uma caranguejeira. Chorou mais assistindo ao <span class="hover:entity-accent entity-underline inline cursor-pointer align-baseline">O Rei Leão</span> do que na morte do tio. Viu que os canalhas não tinham tanto poder como pensava. Já se declarou do jeito mais desajeitado do mundo, e justo por isso ganhou um beijo. Quase morreu três vezes.</p> <p data-end="1631" data-start="1602">Não, você ainda não viu tudo.</p> <p data-end="3061" data-start="1635">Já viu diabo convertido em querubim? Já viu uma metáfora se concretizar? Teve a terrível sensação de olhar em volta e não fazer a menor ideia de onde estava? Viu o sertão virar mar? Ou que inventaram um comprimido que cura diabetes? Já respirou e expirou sem que isso fosse involuntário? Emparedou Deus pedindo explicações sobre a existência das mutucas e carrapatos? Teve certeza de uma certeza que não era certeza? Já achou que a lua ia mergulhar no mar de tão pertinho que estava? Viu beija-flor pausar para pensar na vida? Contou a um extraterreste, que viajou dez anos para chegar aqui, a graça de pegar jacaré no mar? Viu os postes e fios que enfeiam as calçadas enfim enterrados? Apostou na tartaruga confiando na fábula e quebrou a cara? O GPS já conseguiu te indicar o caminho, aquele? Já viu nevar em Caraguatatuba? Percebe a iminente revolta das formigas? Sentiu a alegria mais boba do mundo ao ser parado na rua por um desconhecido e ele perguntar: “você não é o cronista?” Viu algum arrependimento nos olhos do ditador? Um político sofrer de timidez? Algum médico receitar uma dieta à base de goiabada em vez de verdura? Releu um livro até constatar que da primeira vez entendera tudo pela metade? Já salvou a vida de alguém? Reparou que ontem nasceu mais uma estrela no céu? Viu o mesmo gesto da mãe repetido pela filha? Já deu esmola a um pobre e no dia seguinte encontrou-o bem vestido, sorridente e altaneiro?</p> <p data-end="3103" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="3065">Então você já viu muito. Mas não tudo.</p>