(FreePik) Leio no jornal uma entrevista com uma bambambã da moda. Ela discorre sobre etiqueta, como se vestir, como se portar, enfim, regras para não fazer feio ou dar vexame. Deve saber do que fala, porque está sempre elegantérrima, de um jeito que a gente não consegue imaginá-la tendo um acesso de tosse, picada por uma formiga, muito menos cravando os dedos de dor nos braços de uma cadeira de dentista. Essas coisas que tocam as pessoas comuns não a devem afligir. A certa altura, leio um conselho que me embatuca: ela afirma que a pessoa deve sempre sair de casa arrumada, bem vestida, como se no caminho fosse se encontrar com ela. Ela, a pessoa amada, desejada, razão dos meus ais (isso sou eu quem estou dizendo, não ela). Pelo que entendi, caso nos encontremos na fila do banco ou dobrando a esquina, é preciso que eu (o leitor) esteja na maior estica, a emanar ares de conquista e felicidade. Nada de calça de agasalho velha, camisa do Santos 2006, boné desbotado e, ao menos que seja para ir à praia, sandálias usadas. Esbanjar elegância causaria no outro grande admiração, o despertar de um interesse ou mesmo uma inveja doída de ver o outro tão bem. O jornal não quis saber a minha opinião. É uma pena. Poderia acrescentar alguns itens que, caso houvesse o tal encontro, eu gostaria que a pessoa amada notasse em mim. Mas não me ocorrem roupas bacanas ou gestos sedutores. Gostaria que ela percebesse, por exemplo, a tremedeira que tento disfarçar. Minha aflitiva procura por um lugar onde enfiar as mãos. Que ela, de algum jeito, pudesse ouvir meu coração acelerado e traidor. Que entendesse que o meu gaguejo não é de nascença e que aquilo que falei sobre o tempo nublado não era o que eu queria mesmo dizer. Que achasse alguma graça no desajeito que ela me causa, uma estranha mistura de me sentir pleno e vulnerável, de querer abraçá-la ou sair correndo. Não sei se tais combinações seriam ou não de bom tom ou se me ajudariam na conquista, desconfio que não. A entrevista era de apenas duas páginas, seria preciso mais umas cinco para se chegar a essas questões. Paciência. Mesmo com a certeza de que a especialista em moda é que está certa, tenho uma preguiça danada de pensar no assunto. Dobro o jornal e resolvo ir à padaria comprar pão e leite. Maturarei no caminho. De calça de agasalho velha, camisa do Santos 2006, boné desbotado e sandálias usadas. Quem sabe volte pela praia.