(FreePik) Tentei ser alto, não deu, faltaram alguns genes e vitaminas. Quis ser bom de bola, furei feio. Quem sabe então ser inteligente, impressionar os mestres, convencer a banca, mas algo me distraiu. Decidi ser temido, impetuoso, me impor pela força, calar o salloon com minha entrada, liderar, comandar, inspirar, mas deu uma preguiça. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Tentei álcool, fumo, música, literatura, religião, chás, viagem, meditação, incenso, ser workaholic, natureba, cinéfilo. Busquei falar francês, saber escolher vinhos, desenhar histórias em quadrinhos, recitar os poetas. Quis brilhar, me sobressair, subir ao pódio. Tentei até ter você. Pare de rir. Procurei ser bom, o erro foi mais decidido. Procurei ser mau, não tive vocação. Ser querido na classe, admirado na empresa, convincente no confessionário, calmo no tumulto, caiçara em São Paulo, sossegado no Carnaval, urbano no meio do mato, um homem sério sentado no sofá da sala do prostíbulo. Acima de tudo, com unhas e dentes, as roídas e os cariados, vencer uma monstruosa timidez – acho que disfarcei bem. Juro que tentei. Usei borracha, reescrevi. Deletei, abri nova página. Reli os mestres na tentativa de algum aprendizado. Inútil: minhas palavras valem tanto quanto o amontoado confuso deste texto. Ensaiei as falas, esmerei os acordes, treinei na véspera, ouvi as lideranças, lapidei as palavras. Uma vez, não deu; na segunda, um fiasco. Em cada tentativa, uma vaia interior era abafada pela maior que vinha de fora. Levei uns croques, criei alguns galos. Ao menos impus uma imagem confiável – a meus amigos, meus filhos, meus colegas, me pediram até conselhos, imagina. Só não digam que não tentei. Ou digam: quem sabe isso possa me redimir. Consegui ser diferente, tido como esquisito, olhado meio de lado pelos parentes, espalhado alguns desafetos. Já é alguma coisa. A espinha vergou, rangeu, nunca voltou ao que era. Se quebrei a cara, convenhamos, ela não era grande coisa, mesmo. E nessa teima de mula velha, insisti. Cheguei a dominar algumas bolas, completar três álbuns de figurinhas, juntar gente com meu violão, pisar em 14 países, juntar 60 aplausos, ganhar na rifa, acalmar algumas aflições, o professor leu a redação na classe, o pai leu a redação à mesa, me deram uns troféus que não sei onde guardei, tive até amores. Tentei ser feliz, vê se pode. Tive lá uns momentos. Acha que estou em paz? Que enfim sosseguei? Nada. De novo, caí na tentação.