(Imagem ilustrativa) Será que um dia a pedra teve coração mole, se derretia à toa, mas que, com o tempo, de tão pisada e chutada pelos homens, endureceu? Será que o caramujo carrega sua casa nas costas por não ter paciência para corretores de imóveis? Que dois mais dois será sempre quatro ou vai depender do humor dos algarismos? Será que, quando o raio cai em alto mar, boia peixe ou eles só sentem cócegas? Que uma hora (aliás, passou da hora) vão inventar uma injeção que não dói? Será que o sol guarda algum rancor do protetor solar? E essa dor, vai durar para sempre ou, como costuma acontecer aos machucados, vai formar casca e ir sumindo, não sem antes coçar um pouquinho? Que essa bambeira nas pernas não é exatamente por causa das calçadas irregulares? Esse perfume que lembra você sabe quem, um dia vai fazer lembrar outra coisa? Será que alguém aí sabe onde está o mapa com a saída do labirinto? As enfermeiras deixarão de dizer todos os procedimentos no diminutivo? Que, de tanto sonhar, vai acabar virando realidade? Ou será possível que o santo na cabeceira, que só assiste a tudo, vai continuar lá, todo estátua, sem tomar nenhuma providência? Que os lactobacilos vivos acham mesmo que aquilo é vida? Os celulares desistirão dessa mania de interromper uma reunião com músicas constrangedoras? E o carro automático, seguirá o caminho programado, impávido, ou vai sentir uma vontade irresistível de dar um pulo em Cafelândia? Fico imaginando se os celulares antigos, esquecidos na gaveta, continuam a trocar mensagens. Se, na verdade, os animais sabem falar, apenas não querem que a gente saiba disso. O que seria da minha vida se eu me dedicasse à engenharia mecatrônica. Se essa aversão a anis e coentro um dia vai passar. Ou se, naquela estação, eu tivesse tomado o trem que ia para a direita ao invés do que ia para a esquerda. Será possível convencer o suicida do contrário? Encontrar a paz em uma cidade sem uma única Rua da Paz? Que algum dia as portas dos trens do metrô deixem de se divertir se fechando na nossa cara? Deparar numa placa de trânsito com o sentido da vida? Sentirá o psiquiatra inveja do salva-vidas, por este poder salvar uma vida em minutos, em vez de cinco anos com sessões semanais? Será que, no fundo, todo goleiro queria marcar, não evitar gols? O palhaço consegue achar graça em outros palhaços? E o fantasma, também se encolhe de medo ao nos ver atravessar sorrateiros o corredor, de madrugada? Finalmente, o será que sim vencerá o que não? Em outras palavras: um dia, ela não vai achar a ideia tão absurda assim? Será? Será.