[[legacy_image_358615]] Desconfie se por acaso encontrar um sapo colorido no jardim e seu exotismo parecer inofensivo. Não perca seu tempo procurando descobrir pelo formato da cabeça se uma cobra é venenosa ou não. Não insista com um fanático, um crente ou com o gerente do banco, não há argumento que os faça mudar de ideia. Não troque de faixa em um congestionamento: isso fará com que, na mesma hora, a fila em que você estava passe a andar, e a nova empaque. Não confie naquela dormidinha de só mais dez minutos depois que o despertador toca. Nem pense que a aranha se atrapalhe com todas aquelas pernas e não consiga correr. No banho, não confie em que aquele restinho de sabonete vá ser suficiente. Não sofra por futebol (tá bom, só um pouquinho). Não pense que a moça não descobriu o seu interesse. Resista ao ovo empanado que está há três dias na vitrine do boteco. Não procure se orientar pela borboleta (ela também está sem rumo). Não fume em público, não enfie o dedo no nariz em público, não coce certas partes em público, não espirre escandalosamente em público, não seja alvo de cassetetes em público. Dê menos importância ao julgamento de quem quer que seja. Tenha paciência com quem está lhe servindo. Não se irrite com a moça do telemarketing, ela está apenas fazendo seu trabalho. Não escolha meias no escuro, não insista no tênis furado, não insista no corte de cabelo que era moda em 1997, não ande distraído pela rua (os buracos e aquilo que os cães fazem estão sempre atentos). E por favor, não arranque sem motivo algum a folha da árvore ou do arbusto, que só está ali para deixar a vida menos cinza. Escreva na agenda, programe no celular, marque na folhinha, amarre o barbante no dedo, mas jamais esqueça o aniversário de casamento. Resista à tentação de matar a abelha – sei, sua ferroada dói, mas elas estão em extinção pela ação de agrotóxicos. De maneira alguma, atravesse uma avenida correndo. Reze: em silêncio, na caminhada, dentro do ônibus, fazendo a barba ou se depilando; peça proteção, peça ajuda, sabedoria, e, acima de tudo, agradeça – mesmo que esteja numa fase de descrença, aliás, principalmente se estiver no momento de não crer. Nunca misture caipirinha com trabalho. Não se esqueça de visitar sua avó. Não mude de calçada para evitar o mendigo. De tempos em tempos (em menos tempo do que você costuma), corte as unhas do pé. Vez por outra, apareça de surpresa levando um presentinho. Ao menos uma vez, subverta a moral da história. Toque a buzina muito raramente. Pause tudo para dar um respiro. Elogie algo bem feito, incentive quem está inseguro. Dê todo o apoio à sua curiosidade. Ponha coragem nessa vida, mas tenha respeito pelos outros. Muito importante: não passe para a frente essas fake news. Mas talvez o conselho mais útil mesmo seja não dar conselhos. Os sábios não precisam deles, e os ignorantes não vão prestar atenção.