(Fernando Frazão/ Agência Brasil) Cada dia um diferente. Semana passada estava de paz, as ondas vinham e recuavam sem pressa nem exaltação, inspirando ventos serenos e vestindo-se de algo entre o verde e o azul. Imagino que os siris assim prefiram. Sábado, acordou virado. Deu para estourar com qualquer coisa, não sei se foram os beliscos dos mergulhões que provocaram sua irritação. As espumas perderam a compostura, os pescadores se recolheram, banhistas nem pensar, e nenhuma canoa se arriscou a enfrentar a arrebentação. Galhos, gravetos e lascas de troncos foram deixados na areia. Talvez por vingança, o mar ainda devolveu à praia uma bicicleta enferrujada, dois preservativos usados e 15 latas jogadas pelos homens como se ele fosse depósito de lixo. Ou a irritação pode ter nascido do navio de cruzeiro que zarpou no começo da noite com festa e rojões. O mar dorme cedo, e essa agitação toda pode tê-lo aborrecido. Ou essa ressaca seja de uma esbórnia submarina de Posseidon cercado de peixes-espada, estrelas-do-mar, pérolas e sereias? Perguntei ao salva-vidas se ele sabia o que havia causado a mudança, ele ficou me olhando de um jeito estranho. Então, do nada, ele serenou. Um grupo de meninos chegou para jogar bola na areia, e isso deve aquietá-lo. Reparei que, quando sopra o vento da terra, o morno terral, as águas se acalmam. Qual será então o seu efeito sobre as ilhas, elas se reconhecem por um instante irmãs do continente? O poeta Drummond nos ensinou que não se deve escrever sobre acontecimentos. Mas como ignorar que, do nada, o tempo fechou e caíram uns raios brabos que, ao contrário do que se supunha, fez o mar ronronar, como naqueles cafunés a que a gente se entrega feito babão? As ondas perderam o ímpeto, mal dariam para os moleques pegarem jacaré. O vento parou de se exibir. Como diriam os caipiras meus conterrâneos, virou um lagoão. Hoje, não sei. Não tenho vista para o mar e, nessa chuvarada, não saio de casa. Mesmo as janelas, estão abertas o pouco que dá para arejar a casa sem empoçar o chão. As nuvens baixas esconderam as montanhas. Sinto não trazer a atual condição do mar. Concordo: falho como repórter. Como estará amanhã? O estouro das ondas vai assustar mesmo os banhistas experientes? Ficará manso até virar o espelho perfeito para o pôr do sol? Vai invadir furioso a avenida da praia, inundar as garagens dos prédios da orla ou deixar a senhorinha de touca e óculos escuros boiar sossegada? Os homens, tão ocupados com seus problemas da terra, irão se importar com isso? Conto com a noite de lua nova, silenciosa e escura, para me iluminar a resposta.