(Imagem ilustrativa/Gerada por IA) Segunda, oito da manhã. Hora boa para caminhar, o sol é gentil, não tosta a pele. Mesmo o vento não causa arrepio e ainda não tem disposição para jogar areia nos olhos. Os guarda-sóis e barracas de suco e caipirinha nem abriram, mas criança brincando na água já tem. Parado no rasinho, o velho com a bengala está com a água nas canelas. Tem o corpo comprido, é a coisa mais alta num raio de 100 metros. Se estivesse ameaçando tempestade, ele corria risco de ser atingido por um raio. Mas está um lindo dia, não há com que se preocupar. Devo dizer velho, ou seria mais apropriado idoso? Ele é mais velho (e alto) do que eu, que caminho firme para os 65 anos, portanto, tenho lugar de fala, como se diz hoje em dia. Assim, digo velho e espero que ele não se ofenda, como eu também não. Há muitos anos, perdi um primo querido atingido por um raio. Não foi na praia, foi num campo de futebol num sítio em São José do Rio Pardo. Ele estava sentado no banco de reservas e, quando enfim entrou em campo, veio o clarão, o estrondo, meio time desabou no chão e ele não se levantou mais. Foi um baque na família, dividida entre a imensa tristeza e a perplexidade. Pouca gente na praia e é justo que assim seja: a semana só está começando, apenas alguns vagabundos como eu aqui estão. Mas não, muita gente está na labuta: o salva-vidas a postos, um bando de garis, um ou outro sorveteiro. O dia está quente, talvez eu entre na água, talvez não. O velho usa óculos escuros, veste uma bermuda que estava na moda em 1980, camiseta regata amarela e um chapéu incomum, engraçado. Com uma mão, ele se apoia na bengala. Com a outra, curvado, ele pega um pouco de água e molha as coxas e as costas para se refrescar. Tem boa elasticidade, o velho. Não perde o equilíbrio, é sacudido, como se diz na minha terra. Ele para um momento e observa as nuvens, o horizonte, os navios à espera de vir ao porto, a Ilha de Urubuqueçaba, o desfile sem pressa das fragatas. Acompanha com a cabeça duas moças que passam ao lado, e parece admirar a aparição como a beleza de uma ilha ou de um céu muito azul. Está sozinho. É solteiro, viúvo ou a mulher gosta de dormir até tarde? Agora olha para baixo. Tira os óculos escuros para enxergar melhor. Procura conchas, bolachas do mar, um cardume desses peixes pequenos que vivem na beirinha, ou um siri para atazanar com a bengala? Estou me aproximando dele e poderei desvendar o intrigante mistério. Passo pelo velho, abro um sorriso, dou bom-dia, ele não me responde nem sorri de volta. É segunda, oito e pouco da manhã, cedo demais para ser simpático.