Hoje, um sanhaço pousou no muro e não era meu pai. Vinte buzinas me deram mais um motivo para ficar. Esse ipê florido está muito adiantado. A camiseta que escolhi tinha duas cores: uma combinava com a calça e a outra, com o marasmo. Um café foi um café foi um café. O vento soprou sobre a árvore e, só por não ser outono, não desprendeu folha alguma. O vizinho do apartamento de cima arrastou os móveis de madrugada, mas ele sempre faz isso. O sol nasceu cedo e horas depois se pôs, não o inverso. Os átomos, mesmo os mais pesados, continuaram a trabalhar sem serem notados. O telefone fixo que eu mantenho mais por preguiça de cancelar tocou uma única vez e não era ela. Algumas nuvens atravessaram o céu pouco interferindo no azul. Marquei de cortar o cabelo na quinta, pode ser que eu desmarque na quarta. Não abri uma única janela da casa, faz frio e um silêncio necessário, meus segredos estão guardados. Não sei quantos dias faltam para Santo Antônio. Hoje o Santos não joga. O relógio da sala continua a me lembrar das horas e do meu pai. Mal uma guerra acabou, outra começou. Minha mulher foi na quitanda, meu filho, trabalhar, minha filha a essa hora está almoçando na Alemanha, eu espirro na sala e ninguém diz “saúde”. O dia não está propício para fazer a barba ou abastecer o carro; em compensação... em compensação... deixa eu pensar um pouco. Há males que vêm. Alguém em algum lugar deve estar fazendo um relatório. Os balconistas da farmácia nem me dão bom dia de tão acostumados. Limpei os óculos, a tela do celular, lavei o rosto e nem sinal dos contornos. Neste momento, nossa pitangueira está salpicada de vermelhos, abelhas e perfumes, mas estou em São Paulo. Aquilo que o médico me falou. A placa de trânsito indicando Paraíso não é clara sobre que direção tomar. Restaram duas mexericas na fruteira e somos em três. Mais grave do que não poder comer brigadeiro é não ter vontade de comer brigadeiro. Mais triste do que não encontrar gerânios é não reconhecer um caso encontrasse. As peças de roupa estendidas no varal atrás do pronto-socorro são todas brancas menos uma vermelha. A falta que faz um balão aceso no céu noturno. Por que os poemas falam mais de tristezas que de alegrias? Hoje, Manoel não me apetece e, claro, a culpa é minha. Não há no jornal um único fato besta que me distraia, só acontecimentos graves, alguns terríveis, e as seriedades não ajudam. Faltou luz, e no seu lugar eu faria o mesmo. Abro um vinho e conheço outras terras sem sair da mesa. Que mania esse povo tem de pesquisas eleitorais. O cochilo também não trouxe o sonho almejado. Nem a noite, a lua. O aniversário do meu filho está chegando e aí sim.