(Rovena Rosa/Agência Brasil) Do lado do morro vieram as nuvens escuras, meio cinzas, meio verdes. De trás dos prédios, as nuvens cinzas, cinzas mesmo. Resolveram se encontrar em cima de nossa rua. Um clarão – São Pedro tirando foto com flash? Um estouro assusta as crianças, cachorros e os que estavam ocupados com outra coisa. Depois do ronco ecoando entre os vãos dos prédios, uma sequência de lufadas pega de surpresa alguns meteorologistas, tios e porteiros que se acham sabidos. Rajadas de pressa impulsionam as pessoas que correm atrás de abrigo. As árvores ensaiam uma coreografia meio epilética. Reparem que, nessa hora, tem sempre uma página de jornal levada aos trambolhões pelo vento. E um guarda-chuva invertido, rolando no asfalto com as varetas espetadas para o alto, feito uma aranha de arame desengonçada. Mansa, apenas minha aproximação da janela para tudo espiar. E o toró desaba. Andamos tão anestesiados que nem nos maravilhamos mais com milhares de gotas de água caindo do céu ao mesmo tempo. Sobe um cheiro quente, de infância e renascimento, um suspiro de alívio emana da terra. As folhas se exibem e se entregam como a uma amante meio sumida, só não ouvimos seu gozo porque o barulho da chuva é maior. Chove forte sobre os remorsos. Sobre os postes e as forquilhas. Sobre os barcos, que agora estão cercados de água por todos os lados. Até sobre os afogados, chove sem piedade. Todo querer está inundado, nada se pode fazer a não ser contemplar, ouvir, cheirar, respeitar. Olha aqueles inocentes, já ensopados. Chove canivete sobre quem menos merecia. O dilúvio arrasta as farpas, mas não lava os pecados. Restos de galhos apostam corrida na enxurrada, como fazíamos de meninos com palitos de sorvete. Lembro as vacas no pasto paradinhas no meio da chuva, ensopadas. Gotas escorrem da janela feito lágrimas, belas como todas as lágrimas. Secos estão apenas os olhos dos que não se impressionam. E os pássaros e moscas, onde estão, onde se abrigam? A chuva traz lembranças de outro tempo, mas não os bolinhos de chuva. O dilúvio dá uma trégua, tempo apenas para os iludidos saírem da proteção das marquises e serem traiçoeiramente alcançados. As poças se reproduzem nas calçadas, a lama cria coragem e uma impressionante cortina de água que, como qualquer cortina, impede a passagem da luz. Os toldos viram estranhas piscinas, a luz de casa vacila, a marquise apanha do aguaceiro, e o som que ela faz é de que está doendo. Os moleques comemoram a lama, saem aos gritos para jogar futebol na chuva e se entregar a um jogo diferente, de uma bola mais suja, traiçoeira e pesada, e o velho que espia da janela em frente parece mais solitário que um único pingo no meio do aguaceiro. Começo a pensar no que fazer quando me afastar da janela. O arco-íris, vaidoso, se maquia no camarim, prestes a entrar em cena. E o sol, como o deus que é, aguarda de braços cruzados e com um sorrisinho no rosto a hora de anunciar a estiagem. Mas deixa os meninos brincarem mais um pouco. É chuva de verão, passa rápido. Aliás, o que não passa rápido nesta vida?