(Imagem Ilustrativa/FreePik) Acordo. Barbeio-me, visto-me, calço-me. Mas decido não sair para a morte: melhor ficar aqui mesmo no quarto, lendo o poema de Drummond. Decido que o dia não será hoje. Dizem que não se deve brincar com essas coisas, mas não vislumbro raios ou fagulhas sorrateiras, e as bombas atômicas, balas perdidas e meteoros parecem contidos. Estou mais preocupado é com essa defesa do Santos e o que ela possa fazer a um coração combalido. Admito que o dia não começou bem. Trouxe um desânimo molengo, que se manifestou sem entusiasmo. Conheço um antídoto: vou coar esse café lentamente e tomá-lo mais devagar ainda, como se eu redescobrisse o gosto a cada gole. Aproveitarei a ocasião para levar uma daquelas prosas demoradas com meus pais. O fato de eles não estarem mais aqui é irrelevante. Contarei a eles os acontecimentos recentes e o espanto e maravilha de tomar café pela primeira vez. Mulher e filhos saem para os estudos e para o trabalho. O meu é dentro de mim. Leio, paro, penso, escrevo; paro, leio, penso; escrevo mais um trecho. Quieto. Estático. Depois da provocação acima, eu que não sou louco de me expor. Tenho mais sorte que o poeta: hoje não preciso sair de casa, não há compromisso algum, não tenho que pegar carro, trem, muito menos avião. Além disso, estou convicto de que não será hoje o dia. Minha consciência é cúmplice. Ataco uma banana. Não acho que me aventuro. A lâmpada da cabeceira está queimada. É um truque, percebo a armadilha. O acaso espera que eu tente uma troca, me arriscando assim a um choque, ou um curto-circuito que cause um incêndio devastador. Eu, hein? Leio com a luz fraca do dia nublado, é o bastante. Pois, então, pausa. Não viverei agora: vou tirar um cochilo, que guarda por alguns instantes uma delicada semelhança com morrer. Não a morte do acidente, barulhenta e doída, mas a doce, a que todos aspiramos (“aspirar” não me parece o verbo adequado). Resolvo sair à rua. Macho destemido, a exibir a ousadia dos tolos, mãos nos bolsos para disfarçar a tensão. Cada passo será carregado de cautela, recusarei as travessias, saltarei os buracos, evitarei a proximidade de cachorros e bicicletas. O máximo que encontro é um casal de namorados, e, mesmo assim, na calçada do outro lado. Mas não nos enganemos: o amor é a vida mais sublime, mas pode matar. Volto para a casa, descalço os sapatos, ponho uma música para tocar, o relógio bate dez horas. Aparentemente, estou salvo. No poema, o avião cai verticalmente, todos rolam pulverizados, e o poeta se transforma em notícia. Nem isso vou virar: no máximo, uma crônica meio vagabunda como esta.