(Imagem ilustrativa gerada por IA) Não me lembrem de que minha janela tinha vista para a praça, e agora sou obrigado a admirar 68 janelas do prédio em frente, todas iguaizinhas e desinteressantes. Preciso esquecer que eu assistia ao nascer do sol laranja e da lua idem e, hoje, o espanto consiste em alguém surgir à janela berrando quando seu time faz gol. Não me lembrem, ah, não me lembrem, de que bebi além da conta. Tomei livro emprestado e não devolvi. Raspei o carro em outro estacionado ao lado e saí de mansinho, fingindo não ter percebido. Não preciso que me lembrem de que não sou melhor que ninguém – até tentei ser outro, mas não funcionou. Quero esquecer que meu amigo partiu, que a menina sumiu, o tempo passou na janela e que não posso mais comer canudinho de doce de leite. Esquecer o que não dá para voltar atrás e corrigir – aliás, que eu nem saberia corrigir. O pior é que as lembranças ruins têm mais poder de aparição do que as boas, e não devia ser assim. Não me lembrem de que em meu país dez mulheres são assassinadas por dia, muitas vezes, por alguém que um dia jurou que as amava. Que poluímos rios e devastamos florestas como se fossem eternos. Que tantas pessoas que eu supunha bacanas põem a culpa nos nordestinos e na indolência dos índios. Quero me iludir com a ideia de que somos um povo bom e pacífico. Por favor, se esqueçam de me lembrar dos foras, dos erros, titubeios, fiascos e vergonhas. Não ponham os contras num prato da balança, que não há prós o suficiente para equilibrá-la. Pulem as passagens mais constrangedoras, quando apontavam para mim às gargalhadas até virar assunto na família. Atenham-se às minhas conquistas (pasmem, elas existem), faço questão de ser iludido. Só aceito ir ao confessionário se em vez de padre estiver à minha espera a tia Estherzinha, que achava graça e me defendia das bobagens que eu fazia. Também prefiro não me dar conta de que meu afilhado está fazendo os mesmos 30 anos que eu tinha quando ele nasceu. Comam menos peixe, façam menos atividade física e palavras cruzadas, desistam da meditação, exercitem pouco o cérebro, essas coisas que dizem serem boas para a memória e que me denunciam. Ou guardem a capacidade de lembrar só para o que me for favorável. Há pouco a fazer para aliviar os remorsos. Mas tentarei ser melhor (embora essa preguiça): vou ultrapassar a superação, lapidar os movimentos e oferecer a outra face até a quem bem merecia o revide. Se por acaso alguma lembrança ruim insistir, tomarei providências exatamente contrárias ao que hoje me causa desgosto. Vocês ficarão impressionados. Só não me lembrem daquilo. Ah, não, aquilo não. Pelo amor de Deus, não.