Não confie na sorte, não confie na morte. No boato que entrou pela janela, no atalho com cara de óbvio, que o dinheiro vá ser suficiente e que o seu santo seja infalível. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Não confie na inocência dos gatos nem em mecânico tagarela. Jamais se fie no sujeito para quem seu cachorro rosna. Ou que vai dar tempo de chegar antes que o toró desabe. Na pouca fundura da poça, na gentileza do policial militar, na garantia do camelô, na terceira saideira dos bêbados e quando o enfermeiro diz que vai ser “só uma picadinha”. E esquece essa conversinha de que o universo conspira a seu favor. Desconfie da balança da farmácia, da máquina caça-níqueis, da gasolina barata, das previsões do astrólogo, da candura da pimenta, da submissão dos robôs, da goiaba que parece não ter bicho, de que a porta corta-fogo corte o fogo, ou que o salva-vidas esteja mesmo prestando atenção. Não creia, ah, não creia no pastor que berra na rádio e pede dinheiro dos fiéis. Que alguém vá devolver o livro. Que alguém vá emprestar a grana. No negócio que é moleza: lucro muito e risco zero. Confie com um pé atrás nos números da loteria sugeridos pelos sonhos e na previsão do tempo para o litoral no feriado. Não bote fé na fraqueza da onda, no equilíbrio do ovo, na sugestão do guia turístico, nessa defesa do Santos, na insônia do vigia noturno, na capacidade do técnico, nos elogios das orelhas dos livros. Duvide do profeta do fim do mundo, do palpite de quem não tem nada a perder e de que o técnico da televisão vá chegar no horário agendado. Nem na memória, muito menos no esquecimento. Não confie em ninguém com mais de 30 anos, cantou Marcos Valle e acho que depois se arrependeu. Não confie nos mariscos que chegam à mesa, especialmente nos que vêm fechados. De maneira nenhuma na monotonia da roda gigante. Nem a pau no heroísmo de quem virou estátua. Por nada na ladainha dos pedintes profissionais. Truco para o político que diz ser antipolítico, mesmo estando há trinta anos na política. Nas rifas e sorteios. Creia desconfiando do que sai na imprensa. Desconfie confiando dos curandeiros. Às vezes sim, às vezes não nos gerentes, advogados e filósofos de botequim. Já na criança que estende os braços, nas desculpas dos envergonhados, no outono prometido pela folha seca, nos loucos mansos, na boa vontade dos enfermeiros, nos olhos que cintilam, que PV = nRT, na reza da pessoa ajoelhada na igreja vazia, nas declarações de amor desajeitadas, nas lendas milenares, nos juramentos de infância, em todos os bombeiros do mundo, em Manoel de Barros, no vira-latas que chega abanando o rabo e que a Terra é azul, redonda e levemente achatada nos polos, pode confiar. Cem por cento.