(Gerada por IA) Eu queria tanto falar com minha amiga. Eu precisava. Muito troço esquisito acontecendo no mundo – os tiroteios, a miséria nas calçadas, culminando com a posse desse homem horroroso na cadeira mais importante do país mais poderoso do mundo. Essas coisas derrubam a gente, por isso eu precisava ver minha amiga. Mais que falar, eu precisava estar com minha amiga. Mas ela pediu que agora não, no momento precisa se recolher, se tratar, ficar forte como sempre me pareceu ser. Resta a mim entender, respeitar sua vontade e me recolher quieto no canto. Como um torcedor fanático que ouve à distância, pelo rádio, o jogo do seu time, espalharei patuás pelo quarto, vou acender umas velas e ficar firme na torcida. Minha amiga está doente e sua doença é grave. Mais do que grave, injusta. Minha amiga só espalha boniteza e sorrisos por onde passa. Eu poderia fazer uma lista de gente cuja ausência traria alguma alegria às pessoas de bem. Mas minha amiga? Alguém nos deve uma explicação. Percebam que, na verdade, nenhum de nós está bem de fato. Vontade de confortar minha amiga, de saber usar as palavras certas para levar algum consolo. Dizer algo tão bobo que a faça rir, rir de se chacoalhar, mas não a ponto de se acabar de rir, isso não, essa história de acabar nem devia existir. Ler para minha amiga. Fazer pipoca com café de coador, coisas que não dão trabalho pra gente fazer. Coçar as costas da minha amiga, ajeitar o travesseiro para que sua cabeça fique confortável, lembrarmos juntos uma letra do Vinicius que pouca gente ainda canta. Depois, fugir daquela cama, pô-la num carro e sair por aí, com as janelas todas abertas, para um lugar onde haja água limpa e umas montanhas com formatos engraçados, e fazê-la se lembrar do vento e das nuvens. Ou não. Apenas ficar em silêncio com ela, só ouvindo sons que a gente não prevê ou controla. Um tico-tico na janela, as badaladas do carrilhão na sala, o pregão do amolador de facas passando na rua. Acho que ela gostaria mais disso, do fazer quase nada, precisa guardar toda sua energia, renascer, virar flor de novo. Minha amiga é muito flor. Uma coisa é visitar, levar um buquê vistoso, um livro de poesia, talvez um pouco de paçoca esfarelada no bolso; se sentar na poltrona reservada às visitas e ser servido de água fresca e bolo de fubá. Outra é querer estar, ali, do lado. A diferença é quase nada, mas faz toda. Qualquer dúvida, uma criança saberá esclarecer. Você não vai se enfurnar em Minas, né? – se bem que sua terra é do ladinho da minha, ficaria fácil. Não vai perder os cabelos, vai? Nem emagrecer demais? Se for, me avise para eu dizer umas verdades para esse sujeito de gravata, que passa pisando grosso, falando ao celular enquanto gesticula muito feio, sorrindo um sorriso que é tudo menos sorriso. Ô, vida, seja gentil com ela. Nossa Senhora das Graças, que de graça entende, olhe pela minha amiga. Ô, amiga, fique boa logo. Nem que seja para voltar, flor que sempre foi, como uma diferente: de rosa para, por exemplo, margarida, que tal? Uma de pétalas muito brancas e caule delicado, que se verga ao vento mas não quebra. Não quebre, amiga. Já, já é o tempo das jabuticabas.