Meu anjo da guarda é uma besta. Quase uma toupeira. Para não dizer uma anta. Ao menos posso vislumbrá-lo na forma de um bicho, o que não deixa de ser simpático. Veja se não tenho razão: o sujeito podia muito bem estar numa regata no mar azul de Cassis, chupando uma mexerica à beira do Rio Pardo, cortando bandeirolas de São João com esmero e a língua no canto da boca, estar levando para um passeio no céu uma mulher linda e encantá-la ao se constatar voando. Mas não. O que ele faz? Toma conta de mim. Paira sobre meu corpo, atento e alerta. Vinte e quatro horas por dia, das quais seis eu estou matutando em frente ao computador e oito, dormindo, e isso deve aborrecê-lo profundamente. Cuida de mim, me protege dos perigos e desafetos, me afasta dos croquetes muito oleosos e das bicicletas vindas na contramão. Meu anjo da guarda me compreende. Vez em quando, até me apoia nas minhas barbaridades. Advoga a meu favor nas causas difíceis, apresenta álibis e atenuantes. E negocia com outro anjo, aquele caído, alguns pecados irrelevantes, que eu possa praticar sem enfurecer os seus superiores. Eu é que não o entendo. Ele tem asas. Asas para ir de Bombinhas a Monte Alegre em 15 minutos, asas para entrar nos concertos sem pagar a fortuna que andam cobrando, mas não: feito um helicóptero invisível, paira de asas abertas no ar poluído de São Paulo e fica me assistindo ler um livro, traçar uma banana ou escrever bobagens como essas. Tem o dom da invisibilidade e, convenhamos, podia fazer melhor uso dele, como entrar no gramado e dar uma voadora no centroavante adversário, ou se embrenhar no camarim das misses. Ele devia estar distraído quando olhei para aquela menina. Pode ter cochilado entre o quinto e o décimo copo. Descuidou-se um segundo, para depois me salvar, quando resolvi parar o carro de noite à beira da estrada para me aliviar numa valeta. Posso atestar para os devidos fins que o moço é eficiente e cumpridor dos horários e obrigações. Falando nisso, quem lhe delegou essa tarefa? Quem olhou para baixo e decidiu: você vai tomar conta daquele perdido ali? Cheguei a pensar que ele tivesse um daqueles nomes de anjos do Antigo Testamento, como Ezequiel ou Gabriel. Mas descobri que ele se chama Maurão. Maurão, meu anjo, não precisa ficar ao meu lado enquanto assisto a esse pavoroso jogo do Santos. Não me apresse, impaciente, enquanto tomo meu cafezinho na padaria. Vou ficar aqui parado de frente para o mar só pensando na vida uns quarenta minutos. Vá cuidar de outra alma mais necessitada. É no que dá ter a eternidade pela frente e poder desperdiçar o tempo à vontade. Entenda: não veja isso como ingratidão. Nada contra vossa angelical pessoa, nosso bem-querer é recíproco. Apenas gostaria que você se divertisse mais, aproveitasse sua vida eterna com mais prazer e satisfação. Falando nisso, uma dica: ainda há casas para alugar em Olinda no Carnaval.