O medo que eu tinha de ouvir na madrugada a tosse do pai. Não era preocupação com sua saúde, era algo inexplicável, irracional, daquele som metálico que vinha do quarto ao lado. Medo de que a pessoa que eu mais amava no mundo no escuro se transformasse em outra coisa. Medo de que as caranguejeiras que moravam no porão resolvessem subir ao andar de cima, passando por entre aos vãos das madeiras do piso da casa antiga. Dos olhares severos dos tataravôs nos retratos na sala, que nos seguiam quando passávamos no meio da noite para ir ao banheiro. De dar com Duque, o pastor alemão do vizinho, uma mistura de coiote e lúcifer, com o portão escancarado. Nunca de que o açude transbordasse, mas que o bambuzal ao lado da casa pegasse fogo, o que de fato aconteceu. Dos fantasmas que vagavam nos corredores, mesmo sabendo que a intenção deles não era a de assustar, só estavam com saudades de uma prosa. Não da bomba atômica, mas de que o rojão explodisse na nossa mão nas festas juninas. Medo de tocar no assunto. Dos erros gramaticais sorrateiros. De que o nevoeiro desista de se dissipar e suma com minha cidade. Da eficácia da maldade. Da vaca Buzina, de couro vermelho escuro e da cara preta, como nos alertava Caymmi. Sua braveza era lendária, e andávamos pelo pasto velhacos, de olho numa possível aparição sua - nesse caso, combinávamos que cada um correria para um lado, para desorientá-la. Da vez definitiva em que o Batman não conseguisse escapar da armadilha do Coringa, medo. De morrer e encontrar no céu o tio Oswaldo. Medo do apito do vigia na madrugada, que avisava de hora em hora que tudo estava bem no bairro, mas que rompia o silêncio feito lâmina. De nadar depois do almoço e ter um treco que nossos pais nunca explicavam o que podia ser. De escuro quando criança e luz demais agora. Menino, de quebrar a perna jogando bola; velho, de escorregar e cair na banheira. De ter sido um pouco ausente na infância dos filhos e de hoje se meter demais na vida deles. De notificação da Receita Federal, de receber multa no rodízio por distração, de que o cozinheiro se empolgue no coentro, do carro quebrar nos fins de mundo em que eu adoro me meter, de roubarem meu celular e descobrir que ele é do tempo em que ainda não se falava em política com tanto ódio. De que o elevador despenque, o motorista do ônibus durma, o mosquito da dengue mire meu braço e que na urgência as pernas precisem correr, mas se neguem como nos pesadelos. Dos prepotentes, algum. Dos fanáticos, muito. Mas zero dos morcegos e abelhas. Medo de me reencontrar com ela e não haver um arrepio sequer. Do inominável voltar. Das manchas brancas reaparecerem (reapareceram). Do asteroide desgovernado. De ser proibido de tomar caipirinha com torresmo (já fui, mas finjo que não). Medo de ferir, de rasgar, quebrar e ofender sem intenção. E de ser enfim desmascarado em público por isso, isso e aquilo outro, cada um com toda razão. De que o caboclo escrevinhador (ou essa outra entidade que baixa em mim) me abandone de uma hora pra outra. Esse medo, nunca passa.