Excelentíssimo senhor juiz, membros do júri, caríssimos leitores, senhoras e senhores, venho a público confessar. Sou culpado pelo aumento das queimadas na Amazônia e da extração irregular em terras indígenas. Não só por isso. Também pelo sequestro do menino Carlinhos em 1973. Pelo pênalti perdido por Zico na Copa de 86, sou culpado. Do cheiro de cebola podre, jogada às margens das estradas que margeiam São José, quando o preço da cebola está tão baixo que não compensa aos produtores colher, ensacar, transportar. Culpado pelo silêncio, pela omissão, por virar a cara, por mudar de assunto. Também sou suspeito de colaborar com o sumiço das abelhas, dos sapos e de milhões de LPs de vinil. De ser o responsável por relegar os chapéus, bambolês e coletes ao esquecimento. Com meu estilingue, acertei três vezes o nariz de King Kong, provocando no bicho gigantesca irritação, aquele fuá todo, e por isso sou perseguido há mais de um século pela Interpol. Mas já tenho alguns reféns estocados. Sim, fui eu quem, com intrigas e futricas, separei os Beatles (não sem antes arquitetar para que a culpa recaísse sobre Yoko). Convenci Kennedy de que seria ótima ideia desfilar por Dallas em carro aberto. Eu que, em 1964, cochichei no ouvido dos militares, dando ideias (quem culpa os americanos, recorrendo a uma fictícia Operação Condor, não sabe do que está falando). Antes que fosse relegado ao ostracismo, fiz com que enguiçassem todos os faróis do bairro sob qualquer chuva, aqueles amarelos piscantes são de sincera gratidão à minha pessoa. De algo, sim, posso ser de fato responsabilizado: por todas as embalagens no país serem obrigadas a vir com a advertência ‘contém glúten’ ou ‘não contém glúten’ (até as de água mineral). Sou celíaco e exigi esse troço aí. Penso se com isso aborreço fabricantes, comerciantes e consumidores. Espero sinceramente que sim. Meu último grande feito: convencer os vereadores a permitirem a construção de megaprédios na orla da cidade. Nessa eu caprichei no desprezo ao interesse público. Do banco dos réus tento alguma saída, um álibi que me absolva. Mas minhas desculpas são insuficientes, meus argumentos, sem pé nem cabeça, as coisas que fiz (ou deixei de fazer) não têm perdão. Nem delação premiada amenizaria a pena. Isso, porque me abstenho de comentar quem delatou o esconderijo de Anne Frank aos nazistas. Estou pronto para a fogueira. Nem aí com os xingamentos em público. Desdenho das pedradas e cusparadas. Dou de ombros para a opinião dos jurados. Sou capaz de superar toda e qualquer tortura. Concedo um risinho sarcástico ao pelotão de fuzilamento. Meu rosto será inspiração para camisetas, pichações em muros recém-pintados e ainda acabarei reportagem no Fantástico. Esgotados todos os embargos, adiamentos e recursos – para isso, meus oito advogados regiamente pagos –, quando a pena já estava prestes a prescrever, acabei confessando. Justo para uma das três pessoas que me odiaram nesta vida. Me entreguei aos guardas, fiz questão das algemas e de não esconder o rosto para os fotógrafos. Contei tudo, do assalto ao trem pagador, o assassinato de Lorca, Lennon e Odete Roitman, à detonação do cogumelo de fogo sobre os inocentes. Só espero, admitida a culpa, que eu olhe para os lados e não veja que sou o único no cadafalso.