(Imagem ilustrativa/Gerada por IA) Você não toma um sorvete segurando a casquinha com uma mão, enquanto com a outra seca com o guardanapo a meleca doce que escorre entre os dedos? Há quanto tempo não faz uma visita para sua madrinha? Não recebe uma cantada? Não sai do cinema com o amigo e, depois da sessão, entra num barzinho e fica discutindo o filme, bebendo e comendo azeitonas? Não corta o cabelo de um jeito diferente, a ponto dos outros olharem para seu cabelo antes mesmo que para você? Há quanto tempo não sai num bloco de Carnaval com uma fantasia francamente ridícula? Quando foi a última vez que você foi ao estádio de futebol, assistir a um jogo que nem do seu time era? Reparou que uma nuvem tem o formato de um chapéu, o último que sobrou da extinção dos chapéus? Sentou-se num banco de praça e ficou pensando na vida, até as pombas em volta não se incomodarem com a sua presença? Inventou uma história para uma criança que a fez olhar para o nada, só imaginando? Quanto tempo faz que você não gargalha? – veja, não falo em riso, sorriso, risadinha, nada disso: quero dizer gargalhada, aquela catarse escandalosa, em que o corpo todo se chacoalha e a gente tem até que enxugar uma lágrima com o lenço? Aliás, qual foi a última vez que você usou um lenço? E jogar uma sinuquinha, quanto faz? Descer de tobogã? Comprar um saco de amendoim sem casca e outro de castanha de caju na Casa Godinho? Ir ao Masp no meio da semana? – sempre se deve ir ao Masp, devia ser obrigatório como marcar dentista regularmente. Pula uma poça? Há quanto tempo não aparece uma espinha no rosto (OK, foi ontem, mas deixa pra lá)? Você não é acordado por um bando de maritacas escandalosas? Não lê uma notícia no jornal tão sem propósito que faz você sorrir? A última vez que você ouviu uma música vindo de uma janela e ficou paralisado pela lembrança que ela evocou? Que dançou com tanta entrega que correu sério risco de se estatelar no chão? Que ia pisar numa única formiga que inadvertidamente surgiu na cozinha, mas se envergonhou do impulso sem sentido e resolveu poupá-la? Que votou com convicção e não por obrigação? Se perdeu pela cidade de propósito? Guardou uma carta? Pegou jacaré, chupou caju, apertou campainha e saiu correndo, nadou em rio, tomou cuba libre, calçou um tênis colorido, mudou o penteado, jogou truco, se apaixonou eternamente por cinco minutos, imitou o Elvis no banho, se vestiu só para ela, interrompeu sua descrença para rezar com desespero, comprou bala a granel, chorou num filme, acordou com pressa e lembrou que era domingo, entrou como uma criança no mar? Faz tempo. Ou não? Sorte sua se, semana passada mesmo, você fez um montão dessas coisas. Significa que... que... ah, sei lá. Só sei que tem um monte de coisa aí que vale todo o tempo do mundo. Aliás, há quanto tempo você não dá a mínima para o tempo?