Devia existir uma lei que, quando está garoando, o cidadão teria todo o direito de parar o que está fazendo, ir até a janela, espiar a rua e só pensar na vida. Sem que o chefe viesse lhe cobrar um serviço, o guarda pedisse seus documentos, o professor insistisse na aula, o personal lhe cobrasse mais empenho ou sua mulher lhe pedisse para ir comprar pão. Pois os compromissos precisam entender que a garoa é contagiosa. Ela cai do céu meio de lado, sem o menor entusiasmo – se dependesse só dela, vai ver nem caía. A água desce com tanta preguiça que às vezes nem chega a tocar o chão; a menor brisa leva os pingos para onde bem entender; o míope tem que tirar os óculos embaçados para poder enxergar. E é certo que, no trajeto da padaria até a casa, o pão que a mulher lhe pediu para comprar perderá a crocância e chegará amolecido, murchinho da silva. É debaixo dela, de noite, que reparamos nas luzes dos postes: forma-se aquele halo de água e vapor ao redor. É bonito de ver e pouco prático de viver. Pois não nos enganemos: o passeio no calçadão está cancelado, a ida ao cinema, arruinada, somente o futebol de praia é que se beneficia da garoa: a bola fica pesada e as faltas, mais entusiasmadas; os pernas de pau se julgam heróis e os goleiros ora fazem milagres, ora levam frangos esplêndidos – na garoa, estão sempre a um passo da consagração ou das pedradas. Nela, os tímidos se declaram. Os cachorros de rua se sentem ainda mais abandonados. Somem os sorveteiros e quero-queros. A aranha na teia aproveita para tomar banho. Descobrimos que o limpador de para-brisa do carro está fazendo um barulho esquisito, humilhado pela garoa, pois sabe lidar é com chuva pesada, lavadora, mas com aquele chuvisquinho cabisbaixo ele se atrapalha todo. Aliás, sessenta e quatro anos e você não aprendeu a diferença entre garoa e chuvisco. Com que intensidade uma garoa é elevada à categoria de chuvisco? Ou é o contrário? Há sempre um piano sendo (mal) tocado em algum lugar quando garoa. Cinco badaladas de um relógio e alguém perdendo o ônibus. Um resfriado esperando sua hora. Uma fumaça saindo de uma xícara. O que não há são as borboletas, que não conseguem voar com as asas molhadas. Quando ela cai (cai ou flutua?), as folhas nem precisam se mexer. Os ossos sentem a umidade tanto quanto os cabelos. As mãos, conformadas, se refugiam nos bolsos. É preciso se vestir de vermelho ou amarelo, para confrontar o tempo cinza. E, de repente, nos lembramos de uma tarde antiga com os pais ao redor da mesa, tomando café com rosca e contando o dia, por que será, qual a relação entre a garoa e a saudade? É certo que a garoa desafia a utilidade dos guarda-chuvas, justifica a existência das mantas e dá motivo para os compromissos serem desmarcados – até o sol prefere ficar em casa, assistindo no sofá ao Bom Dia Brasil. Está garoando. E vai continuar garoando, a água morosa aspergida sobre os frutos e as formigas, sobre os telhados e espinhos, sobre os quebra-molas e os arrependimentos, cáries e semáforos. Vai garoar até que tudo se acalme e esses caras que mandam no mundo decidam promulgar a tal lei do primeiro parágrafo, para a gente poder enfim viver em paz.