Foto Ilustrativa (Alexsander Ferraz/AT) Venho fazer uma denúncia. Uma queixa aparentemente sem importância, mas é nas derrotas das pequenas questões que a breca vai sendo levada. Além do mais, neste tempo de redes sociais e viver em voz alta, o cidadão que não vier com uma denúncia corre o risco de falar num imenso vazio. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Quero delatar a mais pura ingratidão. Saio em defesa dos peixes. Sim, os peixes, esses injustiçados, discriminados em detrimentos de seres do mar, digamos, mais nobres. Só porque vivem aos montes, em cardumes, e nos acostumamos a eles, estão nas feiras livres, nos supermercados e nos pratos, viraram carne de vaca (péssima imagem), arroz de festa (não foi melhor), perderam o interesse geral. No Aquário Municipal, por exemplo. Constate que as crianças passam pelas vitrines dos peixes sem dar a menor pelota, por mais cor e formato que eles inventem para chamar a atenção. O que atrai a petizada é o espaço dos pinguins, das tartarugas ou do leão-marinho, que é, afinal, um tratante, só faz dormir e, em 13 minutos do dia, bater palminha e fazer graça em troca de um pouco de sardinha. Nos quadros que enfeitam as paredes mundo afora, veja: é comum encontrar polvos exuberantes, lulas gigantescas, estrelas do mar inexistentes, imensos tubarões (nunca havia reparado em quão rica de adjetivos é a fauna marinha), mas aos peixes é reservado um cantinho sem importância, geralmente com um olhar desinteressado e desinteressante. Ah, o(a) senhor(a) está bocejando. Acha o assunto de uma bobagem tremenda. Já vi que prefere de fato as coisas monumentais, como baleias azuis e cardumes de águas-vivas de dezenas de metros de extensão. Ou os alegres golfinhos, saltitantes e hábeis na arte de entreter humanos. Pois prefiro a dignidade dos peixes, nem aí se estão agradando, se recusando a dar saltos ornamentais, se fingir de mortos, apenas nadando pra lá e pra cá, nobres e sem mendigar a atenção e festinha de ninguém. Fosse eu um peixe mais majestoso, como um atum ou espadarte, partiria para o pau. Domaria os cavalos-marinhos, amarraria as tenazes dos caranguejos ou faria greve de fome, só pra ver os outros bichos se alimentarem sem os cardumes. Imagine o tamanho da passeata de todos os peixes do mundo, em fila, protestando contra o pouco caso. Só de sardinhas, daria para bloquear uns dois mares. Me digam se Jesus Cristo multiplicou as ostras. Se os ouriços se prestam a sushis. Tentem alimentar uma tartaruga de hambúrgueres e cup noodles. Toda essa história porque estou num restaurante banal, de uma pequena cidade do litoral, e o cardápio de mau gosto retrata polvos, estrelas do mar e tartarugas em desenhos pobres. Mas nada de peixes. Mesmo os peixes oferecidos são todos empanados ou selados em farinha de trigo e eu sou celíaco, não posso comer, senão tenho um troço. No dia da revolta pisciana, aquele careca ali na cozinha será o primeiro a ir para a guilhotina. Como um risoto de mariscos. Mastigo devagar e informo a todos que a vingança tem sabor de maresia.