(FreePik) Sair de casa para ir à padaria e, no caminho, levar uma folha seca na cara. Comprado o pão, reencontrar na volta a folha caída na calçada e nela pisar, não por vingança, mas para ouvir aquele barulhinho bacana, parecido com o que o pão recém-comprado faz quando a gente crava os dentes. De vez em quando isso acontece. Acontece do elevador abrir, entrar uma mulher e um cachorro, e o cachorro simpatizar imediatamente com você, abanar o rabo, pular e fazer uma festa danada. A ponto da mulher olhar para você muito espantada, como se reconhecesse na hora o verdadeiro dono do cachorro. Acontece. De vez em quando acontece de você se apaixonar por quem não devia. Não estava na hora, não tinha cabimento, não havia qualquer esperança. Mas acontece, você não controla essas coisas. E se controla demais, o que costuma acontecer é um troço dentro do peito que faz você parar no Unicor. Acontece (ainda bem que de vez em quando) da porta bater, do dente cair, do documento sumir, da luz faltar (mais do que devia), do galo não cantar, da gente ficar gago no momento mais inapropriado, e de ter que se fingir de louco quando numa roda alguém pede a volta dos militares, e você finge que não ouviu porque cansou de bate-boca, está com preguiça e aquela pessoa é querida, apesar de meio idiota. Mas também não acontece da empadinha no boteco pela qual você não dava nada estar es-pe-ta-cu-lar? Da dor passar sem explicação? Acontece, ué. De vez em quando acontece até o que não acontece: o aumento de salário, o pedágio liberado, a aparição do fantasma, o fim do mundo. Encontrar no bar, duas mesas ao lado, seu escritor vivo favorito e, por timidez, vergonha, respeito, caipirice, sei lá, não interromper seu sossego, não pedir autógrafo, não babar na sua careca. Comigo aconteceu. Acontece até do revisor apontar que essa forma gramatical está errada, e que o certo é “Acontece até de o revisor”. Que regrinha antipática, tá doido. Felizmente, também acontece de muita gente que eu respeito questionar a regra. Também sucede de alguém sugerir que você está repetindo demais o verbo “acontecer”, aí você troca e não fica melhor não. De vez em quando acontece ainda da gente se imaginar levando outra vida, com outro nome, até outro temperamento, vestindo roupas meio malucas em outro país – um menos quente, talvez. Ou achar que ainda tem 30 anos e é capaz de fazer algumas coisas desaconselhadas a maiores de 60. Acontece até da gente escrever com a ilusão de que será lido, comentado, admirado e fará alguma diferença. Mas, como diria mestre Cartola: vê se esquece, isso não acontece.