[[legacy_image_345535]] Levei 62 anos, 5 meses e 9 dias, percorri 140 cidades, dormi em barco no meio do Pantanal, no banco da praça em São Sebastião, em hotel 5 estrelas, na areia da praia sob 5 mil estrelas, corri de ganso, ladrão e muito atrás de bola, peguei trem, bonde e bode de barco, pulei quatro fogueiras, me alimentei de banana e pastel, bebi de rum Georgetown a Veuve Clicquot, engasguei com café, saliva e farofa, toquei guitarra em Trio Elétrico, pandeiro na missa (!), sangrei o dedão em Ubatuba, tomei chuva em Copenhague, tossi como todo moleque que tenta tragar o primeiro cigarro, estudei física, matemática, anos e anos de ‘question tags’ – nunca entendi por que era tão importante saber aquilo –, me perdi sete meses pela Europa, me encontrei em Tiradentes, ouvi Caymmi, Tom, Chico e Caetano pelo caminho, cancelaram meu voo de volta duas vezes, desenhava gibis inteiros quando criança, tocava violão quando jovem, me espantei de ver como era o mundo quando os óculos corrigiram meus 7 graus de miopia, já assobiei em reunião, murmurei samba em velório, decorei o salão do clube para o Carnaval, viajei sob as estrelas em caçamba de caminhão, um menino que eu nem conhecia me empurrou numa moita de espinhos, escutei rádio fazendo barba, escutei tomando banho, escutei no trânsito, de madrugada deitado na cama com o radinho colado ao ouvido para não acordar os irmãos, andei de jegue, jangada e pedalinho, deixei a barba, fiz barba todo dia, depois dia sim, dia não, depois de 5 em 5 dias e hoje é esse relaxo, já usei gravata e aparelho para ouvido, beijei quem devia e quem não merecia, peguei caxumba, catapora, covid, dengue, peguei jacaré, peguei birra de shopping center, levei ferroada de marimbondo em São José, brincava com meus irmãos, brigava com meus irmãos, sobrevivi a cinco moedas, subi e desci ladeira em Olinda no Carnaval, subi e desci ladeira em Salvador sem ser Carnaval, andei a cavalo e dirigi carroça, viajei muito de ônibus cata-coió, desci de tobogã e montanha-russa, desci a Zona do Agrião em carrinho de rolimã, lasquei o dente pulando em piscina rasa, senti no rosto o gelo da neve e a brisa do mar, vi o Brasil ser campeão mundial três vezes, vi Pelé fazer gol ao vivo, dirigi Kombi sem breque, fui mordido duas vezes por cachorro, toquei violão no metrô de Paris para comprar pão e vinho, caí de cavalo, caí em um golpe e de paraquedas em alguns empregos, vesti calça Lee, calcei Kichute e (pouquíssimo) sapato, encarei fila em banco e 12 pedaços no rodízio de pizza, fui atropelado brincando de Batman – correndo atrás do Coringa sem olhar se vinha carro –, fiquei preso em elevador, nas missas obrigatórias do colégio, nos engarrafamentos e até em algumas madrugadas no trabalho, escalei o Dedo de Deus (juro), vi lua cheia nascer imensa e acordar os galos que pensavam ser o sol, tive 2 filhos muito melhores do que eu e quase morri três vezes. Tudo para ir colhendo as palavras pelo caminho, chegar aqui, diante de você, e dizê-las baixo e sem pressa, como se lesse um poema. Agora me escute.