(Alex Brandon/Associated Press/Estadão Conteúdo) Sei que o aquecimento global está aí, que a guerra no Oriente Médio se alastrou, que existe chance real de Donald Trump ser reeleito presidente dos Estados Unidos (socorro!), mas a vida não tem só o lado das desgraças não, tem o lado bom também. Aliás, tem muitos outros lados, mas eu que não vou discorrer sobre cada um que já estou me complicando. Hoje de manhã, tive uma surpresa do lado bom. Não foi passeando na praça, pelo calçadão da praia ou brincando com crianças, como costumam vir os pasmos bons - não: foi fazendo palavras cruzadas. Concordo que isso é meio decepcionante para o leitor jovem, que esperava uma vida mais emocionante e destemida da parte do escritor. Mas meus irmãos com mais de 60 anos vão entender o momento. Além disso, são só sete e vinte da manhã. Deixemos de digressões e vamos ao ponto. Sou ruim de guardar segredo e ainda pior de fazer surpresas. Vejam vocês que revelei de cara a tal surpresa no título da crônica: “Adivinhe-quem-vem-hoje”. Segundo o enunciado da palavra cruzada, é o curioso nome de um passarinho muito comum na Amazônia. Segundo Mestre Aurélio, trata-se de uma ave passeriforme encontrada na América do Sul, de bico cinzento, dorso verde e ventre esbranquiçado com uma faixa amarela, também chamado de pitiguari. Adivinhe-quem-vem-hoje. Nome mais lindo, delicado e tão brasileiro. Antes de procurar mais informações, imaginei um passarinho pequeno, que aparece meio sorrateiro, se espreita entre as folhagens, ao mesmo tempo curioso e um tanto tímido, e pie discretamente ao anunciar sua chegada. Esse jeitão justificaria a graça do nome. Aproveito para uma correção imprescindível: na palavra cruzada em questão, a solução do verbete previa um ‘a’ equivocado: “Adivinha-quem-vem-hoje”, não “Adivinhe” . Não só está incorreto como tira um pouquinho da graça, vamos combinar. Recorrendo ao Google, de fato este confirma a existência do pássaro. Mas não inclui nenhuma foto ou ilustração. Fiquei decepcionado. Minha Beatriz sugere que eu procure na National Geographic ou no Wiki Aves. Estou com um pouco de preguiça. Peço então, encarecidamente, aos meus leitores que moram na região amazônica (existirá algum?) que me mandem alguma foto do bichinho. Ou bichão, como parece menos provável. Vou enquadrar e pendurar na parede, ao lado das dezenas de espécies que tenho em casa, pintadas pelo amigo e artista José Carlos Lollo. Tenho outros passarinhos também, todos fora de gaiolas, esculpidos em madeira pela Oficina de Agosto de Tiradentes, mas lá vou eu me estendendo e fugindo do assunto. Só nos resta torcer. Torcer para que exista o leitor amazônico. Torcer para que um adivinhe-quem-vem-hoje lhe dê o ar da sua graça. Torcer para que o bicho sossegue um pouquinho para que o tal leitor possa fotografá-lo. Para que ele gentilmente me mande a foto. E o mais importante: torcer para que o mundo nos traga menos notícias do lado das desgramas. Xô, Trump!