(FreePik) O bloquinho passou, levou a alegria para outra quadra, ficou a chave esquecida no meio da rua. Na empolgação, alguém a deixou cair. Brilhava sob o sol do Carnaval, que é um sol diferente, você sabe, uma faísca de prata no asfalto. O Carnaval existe para se perder. Natural então que as coisas, como os homens, queiram se jogar, se livrar, nem que seja por um instante. Até que a quarta-feira traga as cinzas, a chave não quer fechar nada, quer mais é escancarar, esquecer sua função, não pesar no bolso, não mostrar os dentes e virar confete que o vento carrega para onde entender. No Carnaval, acontece até da Física enlouquecer e o vento poder mais que o peso. A chave perdida é um símbolo: a hora é de esquecer as trancas. Estejamos abertos. Bem capaz dela liberar a porta do precipício, a passagem do cadafalso, o mergulho na fantasia. Certo, alguém perdeu a chave. Terá de tocar a campainha de casa e, quando alguém abrir a porta, dará com esta pessoa provavelmente bêbada, exausta, melecada e com inexplicáveis purpurinas coladas ao suor do rosto. Haverá uma tentativa de explicação, mas as palavras sairão em letra de forma. Todas as broncas do mundo não irão constranger aquele sorrisinho meio de anjo, meio cafajeste. Passado o bloco, vem a ala da limpeza. Um gari aparece para limpar a rua e percebe a chave. Larga a vassoura no asfalto, se agacha, olha em volta como se procurasse o dono. Desvio o olhar para que ele não perceba que está sendo observado. Pelo canto do olho, vejo que ele sorri com o achado. Entende o recado: seu boné vira coroa, a vassoura, seu cetro. Arrisca uns passos de samba, a chave erguida é o estandarte de sua escola, e a arquibancada imaginária irrompe em aplausos. É tamanho seu devaneio que ele deixa cair a chave de volta ao asfalto. O sol já não é o mesmo, a chave não faísca tanto. Agora quem desfila são as nuvens. Escuras feito uma segunda-feira sem Carnaval. Vem chuva braba, daquelas de lavar fantasia e a alma de Momo. O bom é que as lufadas trazem serpentinas para fazer companhia à chave. Outro bloco se aproxima. Podemos ouvir o baticum e o alarido dos foliões. A chave se anima: certamente será pisada, chutada, ficará imunda e, quem sabe, vai acontecer de uma outra chave, um moedeiro, um brinco ou óculos escuros cair ao seu lado. Juntos, eles irão se abraçar, beber das gotas de cerveja desperdiçadas pelas latas, se esfregar e cantar Bandeira Branca, um tanto emotivos. Até que uma mulher fantasiada de noiva vem em sentido contrário, curvada, olhando aflita para o chão. Reconhece sua chave, a pega, beija (que importa se está imunda?), vibra e amarra no buquê. Vai voltar correndo para o seu bloco, que já vai longe, quando percebe a aproximação do outro. Hesita. Decide voltar para o primeiro. Um raro instante de lealdade e sensatez nestes dias. De tudo, tiramos duas conclusões: a fantasia de uma chave dura ainda menos que a nossa. E que Carnaval é a coisa mais doida que existe.