(Imagem ilustrativa/Pexels) Eu tenho uma tia (que na verdade não é tia, nem parente, mas me acostumei a chamá-la assim, de tia) que tem uma vida tão sem graça. Dela disse uma vez outra tia (essa sim, tia mesmo) que ela faz lembrar aquela música do Vinicius: “Quem já passou por essa vida e não viveu...”. 50% do seu tempo é em frente à televisão, 10%, reclamando da vida, 5%, tricotando, 5%, comendo algo invariavelmente sem graça. E os outros 30%, falando mal do alheio ou vibrando com algum infortúnio. Talvez seja o único momento em que a vejo sorrir, estampar algum prazer. Caramba, ela depende da desgraça dos outros para se sentir bem. Se um casal se separa, ela diz, com um sorrisinho no canto da boca: “demorou”; se continuam casados, “ele aguenta só porque tem outra”. Se o sujeito é rico, “roubou”; se é pobre, “também, nunca foi atrás”. Quando o Brasil perde na Copa, ela vibra. Quando o filho de uma amiga passa no vestibular ou arruma um bom emprego, faz pouco do seu mérito ou prevê que não vai durar muito. Se alguém é religioso, é “um carola”. Se não é, “é comunista”. E o sentimento vale tanto para pessoa física como jurídica: quando sabe de uma empresa que está em dificuldades ou que fulano de tal, outrora rico de pedra, faliu, ela vibra com toda sinceridade. Quebra a cara menos do que acerta: parece que as pessoas como ela, os da torcida contra, têm mais motivos de alegria que qualquer outra. Não vai à praia. Não caminha no jardim. Não joga um baralhinho com as amigas. Acha João Gilberto um chato e ponto. Nunca a vi com um vestidinho novo. Não quer um cachorro porque não suporta bicho. Lê dois livros (ruins) por ano. Ninguém pode abrir uma cervejinha que já é taxado de pinguço. É, como se vê, a alegria de viver. Resultado (previsível): quase não recebe visitas. Quem quer ficar escutando pragas e relatos sobre o tropeço dos outros? Se ainda ela servisse uma rosca com um cafezinho, mas nem isso. Mas numa coisa há uma coerência: tampouco gosta de visitar ninguém. Só se essa pessoa estiver doente, para ter o prazer de assistir a um sofrimentozinho. Eu que não sou louco de revelar o nome da tia. Vai que ela mire em mim seu desgosto. Pensando bem, minhas conquistas mequetrefes seriam motivo para ela soltar foguete. Gosto de imaginar que, um dia, feito um Scrooge de Dickens encravado nos trópicos, um pesadelo a convença a mudar radicalmente de vida. E que ela enfim sinta graça em olhar o mar, admirando a passagem preguiçosa de um barco à vela, comendo um biscoito Praiano levemente temperado com a areia da praia salpicada. De preferência, com as risadas de cinco moleques correndo estabanados para entrar no mar, atropelando e jogando água em tudo e todos pelo caminho. Difícil, mas não impossível. Ainda Vinicius: “Não há mal pior do que a descrença/mesmo o amor que não compensa/é melhor que a escuridão”. Vamos, tia: largue essa vidinha besta. Ainda dá tempo. Não muito, mas dá.