[[legacy_image_14071]] Em casa de português todo mundo sabe o que não pode faltar: pão nas refeições (qualquer refeição), uma taça de vinho e música, de preferência daqueles cantores que tocam na alma de todo lusitano que saiu de sua terra natal e cruzou os oceanos. Ao lado de Amália Rodrigues, Roberto Leal é um deles. A partir deste domingo, o silêncio tomará conta dos lares durante um tempo. Será um dos lutos mais sentidos, mesmo para quem não conhecia direito as letras de suas músicas. Roberto Leal nos deixou nesta madrugada, aos 67 anos. Morreu em um hospital de São Paulo em decorrência de um melanoma, um câncer de pele bastante agressivo. Diferente de Amália Rodrigues, cantora portuguesa que nos deixou há 20 anos, Roberto Leal cantava um tipo de música mais alegre que o fado. Era divertido, alegre, sacodia o público. No show realizado em Santos, em 2017, por ocasião do centenário da Portuguesa Santista, o salão social estava lotado, com gerações de portugueses e seus descendentes. Impossível ficar parado: "Ai bate o pé! Bate o pé Bate o pé Bate o pé Faça assim como eu Ai bate o pé Bate o pé Bate o pé Foi assim que o meu amor me prendeu Roberto Leal permeava seus shows contando um pouco de sua vida, sua trajetória na música, a família e o prazer que tinha em transitar entre Brasil e Portugal como sendo ambos seus lares.O Brasil acolheu esse português em 1962, quando se mudou com a família aos 11 anos. Em São Paulo, trabalhou como vendedor de doces e sapateiro antes de começar a cantar fados e músicas românticas. "Arrebita" foi seu primeiro sucesso. E quem não conhece a letra? "Ai cachopa, se tu queres ser bonita Arrebita, arrebita, arrebita!" Inúmeros foram os sucessos desse luso-brasileiro, que interagia com o público e parecia não envelhecer. No último show, algo já parecia estar desconfortável no palco. Cantou sentado na banqueta a maior parte do tempo, e de óculos escuros. "É a idade que vai chegando", brincou. "Já cantei a cana verde, fandango e o corridinho O vira, o fado e o malhão cantei a chula do minho É assim que se arrebenta a festa E nunca cantar sozinho" Roberto Leal vai fazer falta, até mesmo aos que não tiveram o prazer de ir a um show. Era a expressão da empatia no palco, a gratidão pela vida, pela terra que o acolheu. Ele conseguia expressar, nas letras de suas músicas, a essência portuguesa que mais tocava o coração: a aldeia, a vida no campo, a saudade dos que lá foram deixados, os amores, a infância na vindima: "Ai! Que saudades que eu tenho De alguns anos atrás Da minha terra querida Com meus amigos leais Ai! Que saudades que eu tenho Da família que não vejo mais Como estará minha casa Como estará meu jardim Onde eu colhi os meus cravos Depois dos tempos ruins" Se é certo que algumas pessoas nos deixam um vazio no coração quando partem, também é verdade que outras têm a capacidade de nos remeter a um tempo que muitas vezes sequer vivemos. Roberto Leal era assim. Ficará a leveza de suas letras. Ficará a beleza de seu coração vivo e alegre. "Ninguém na rua, na noite fria, só eu e o luar Voltava a casa quando vi que havia luz num velho bar Não hesitei, fazia frio e nele entrei Estando tão longe da minha terra tive a sensação de ter entrado numa taberna de Braga ou Monção E um homem velho se acercou e assim falou Vamos brindar com vinho verde que é do meu Portugal e o vinho verde me fará recordar A aldeia branca que deixei atrás do mar Vamos brindar com verde vinho pra que eu possa cantar Canções do Minho que me fazem sonhar com o momento de voltar ao lar"