[[legacy_image_310835]] A cena fixou na minha memória e não sai desde domingo passado. Consigo me colocar no lugar dela e sentir, exatamente, o que ela sentiu naquele momento. A mãe de uma candidata se desespera ao chegar na Universidade de Cuiabá com a filha e encontrar o portão fechado. A jovem ia participar do primeiro dia de provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A imagem penaliza: a mãe se ajoelha diante do portão fechado e chora, a filha a levanta e abraça longamente, como se estivesse dizendo, 'tá tudo bem, mãe, não fique assim'. Fico só imaginando o passo-a-passo daquele dia e de todos que o antecederam. Imagino porque também vivi essa fase lá em casa, com dois filhos agora já formados e trabalhando. Para os pais que se envolvem verdadeiramente com essa agenda de estudos, é quase mandatório parar o olhar em todas as notícias que falam sobre abertura de inscrições para os vestibulares, calendário de provas, prazos de pagamento de boletos, onde fica a escola em que a prova será realizada, o que levar no dia, quando sai a lista dos classificados na primeira fase, quando será a segunda fase, qual a nota de corte para a carreira escolhida pelo filho, quais as obras literárias de leitura obrigatória, quantas questões tem cada prova, se são de múltipla escolha ou dissertativas etc, etc, etc. Lápis e borracha, caneta azul ou preta de tubo transparente, garrafinha de água, barrinha de cereal, chocolate, carteira de identidade original e bem conservada, celular do lado de fora da sala durante a prova. Esses eram - e ainda são - os itens constantes na tábua das leis para nós, os pais, vestibulandos por tabela. Em geral, não há vagas para todo mundo, especialmente quando está em disputa uma cadeira em universidade pública em carreira de grande concorrência. Injusto? Talvez. Melhor seria ter vaga para todos aqueles que tivessem percorrido um caminho de excelência na educação básica e colecionado boa performance nesses 11 anos. Melhor ainda seria que todo o ensino superior fosse acessível aos jovens egressos do ensino médio, em escolas públicas bancadas pelo governo. Mas no Brasil não é assim que brinca, então, o funil do vestibular segue desafiando o equilíbrio emocional de meninos e meninas. E dos pais também. Gostaria muito de poder abraçar aquela mãe que se ajoelha diante do portão fechado. Abraçar e dizer a ela que não se desespere, que tudo vai passar, que tudo que a filha precisa, agora, é de mais um aprendizado para além dos conteúdos disciplinares em matemática, língua portuguesa, história, geografia, física, química: o relógio é implacável seja você uma boa estudante ou não, seja você uma mãe participativa ou não. Se assim aconteceu é porque algum aprendizado se fez nesse dia. A todas as mães e pais que começam a viver a angústia dos vestibulares a partir de agora, uma mensagem de alento: tentem controlar as emoções, acolher as incertezas e angústias dos filhos, abraçar e torcer. Eles são capazes de enfrentar esses desafios, que fazem parte da vida e ajudam a crescer. Tudo passa e vira lembrança.