(Imagem ilustrativa/FreePik) Nem sempre os episódios que ganham grande repercussão pública começam exatamente no momento em que se tornam notícia. Muitas vezes, eles são apenas o ponto visível de um processo que começou muito antes, silenciosamente, em pequenas permissões e em conversas que nunca aconteceram. O recente caso envolvendo alunos do ITA e a criação de um jogo inspirado em um cenário de sequestro e exploração de uma adolescente chocou muita gente. E precisa mesmo chocar. Mas também exige algo além da indignação imediata. Exige reflexão. Quando uma ideia como essa surge dentro de uma sala de aula de uma das instituições mais prestigiadas do País, é sinal de que algo falhou muito antes daquele momento. Não começou ali. Não nasceu naquele trabalho acadêmico. Situações assim são fruto de uma construção cultural que começa muito mais cedo, quando esses jovens ainda são meninos. É comum que, diante de episódios desse tipo, a reação seja pedir punição exemplar. E ela pode ser necessária. Mas a punição, sozinha, não resolve a raiz do problema, porque a pergunta mais importante é outra: em que momento deixamos de conversar com nossos filhos sobre respeito, limites e violência? A violência contra mulheres, dentro ou fora de casa, não surge do nada. Ela é construída aos poucos, em pequenas permissões, em piadas que parecem inofensivas, em comentários naturalizados, em silêncios. Quando meninos crescem sem serem provocados a refletir sobre isso, podem chegar à vida adulta sem perceber a gravidade de certas atitudes. É por isso que a conversa precisa começar cedo, dentro de casa, entre pais e filhos, entre mães e filhos. Também com as meninas, que precisam aprender a reconhecer abusos, a identificar sinais de violência e a não normalizar comportamentos que as diminuem. Não podemos partir do princípio de que jovens já sabem o que é certo e o que é errado. Eles aprendem com exemplos, com diálogo e com confronto de ideias. E isso precisa acontecer também nas escolas, nas universidades, nas rodas de conversa, nos espaços de convivência. Se algo positivo pode surgir de um episódio tão perturbador, é o fato de que hoje essas situações não ficam mais escondidas. As redes sociais, que tantos lados negativos têm, também cumprem um papel importante: trazer à luz aquilo que antes ficava restrito a ambientes fechados, corporativos ou acadêmicos. Durante muito tempo, absurdos aconteceram longe do olhar público. Não viravam notícia. Não geravam debate. Ficavam abafados por conveniência ou silêncio. Hoje, quando um caso vem à tona, ele nos obriga a encarar o problema e sair da inação. E talvez esse seja o verdadeiro ponto de partida: reconhecer que a formação de homens não-violentos não acontece por acaso. Ela precisa ser construída todos os dias, dentro de casa, na escola e na sociedade.