(Alexandre Lopes/AT) Confesso que desembarquei na China carregando imagens que me acompanharam durante praticamente toda a vida. Como muitos brasileiros da minha geração, cresci ouvindo que tudo o que vinha da China era falsificado. Que o país era sinônimo de produtos baratos, baixa qualidade e atraso. Que o comunismo controlava cada aspecto da vida das pessoas. Que havia escassez, repressão e uma realidade muito distante daquela observada nos países ocidentais. Uma semana depois, ao deixar Xangai rumo à etapa final da Missão Internacional Porto & Mar 2026, a sensação que levo é simples: a China que encontrei não era a China que me contaram. Antes de continuar, faço uma ressalva importante. Não estou escrevendo sobre a China inteira. Um país com mais de 1,4 bilhão de habitantes certamente possui realidades muito diferentes entre si. Também não estou escrevendo como especialista em política internacional ou em geopolítica. Estou relatando a experiência de alguém que passou uma semana entre Pequim e Xangai observando pessoas, cidades, empresas, ruas, transportes, comércio e infraestrutura. E o que vi me surpreendeu profundamente. A primeira surpresa foi perceber que a imagem da China do ‘xing ling’ parece pertencer ao passado. Ao longo dos últimos dias visitei algumas das empresas mais avançadas que já conheci. Centros de inteligência artificial, operações logísticas automatizadas, fábricas inteligentes, portos altamente digitalizados e complexos tecnológicos que parecem ter saído de filmes de ficção científica. Em muitos momentos, tive a sensação de estar observando algo que ainda levará anos para chegar a boa parte do mundo. A segunda surpresa foi a organização. Transporte público funcionando com precisão impressionante. Ruas limpas. Espaços públicos conservados. Sistemas integrados. Tecnologia presente em praticamente tudo. Da compra de um simples produto ao embarque em um trem-bala, tudo parece ter sido pensado para funcionar de forma rápida e eficiente. Isso não significa ausência de problemas. Os congestionamentos, por exemplo, impressionam. Em cidades com dezenas de milhões de habitantes, deslocamentos de uma hora ou mais fazem parte da rotina. A escala chinesa cria desafios que poucas nações enfrentam. Ainda assim, o que mais me chamou atenção foi a capacidade de execução. A China parece ter desenvolvido uma habilidade rara: transformar planejamento em realidade. Enquanto em muitos lugares grandes projetos passam anos sendo discutidos, aqui eles parecem sair do papel em velocidade impressionante. -fotos da china (1.516207) Também impressionou a sensação de segurança. Ao longo de uma semana caminhando por Pequim e Xangai, em diferentes horários e regiões, não vi cenas comuns em muitas grandes metrópoles ocidentais. Não encontrei áreas degradadas, não observei pessoas vivendo nas ruas e vi moradores utilizando celulares e circulando com uma tranquilidade que chamou muita atenção. Novamente: trata-se da minha percepção como visitante. Mas foi impossível não notar. Outro aspecto que me marcou foi o comportamento das pessoas. Em vez da imagem de uma população fechada e desconfiada, encontrei gente curiosa, educada e, muitas vezes, orgulhosa do país que ajudou a construir. Nas conversas que tivemos, a percepção era de confiança no futuro. Talvez a maior reflexão desta viagem seja justamente essa. Durante décadas, fomos acostumados a enxergar o mundo por lentes predominantemente ocidentais. Muitas vezes recebemos explicações prontas sobre quem são os mocinhos, quem são os vilões e quais modelos funcionam ou não funcionam. Viajar tem a capacidade de quebrar essas certezas. A China que encontrei não parece um país parado em debates ideológicos. Parece um país obcecado por crescimento, produtividade, infraestrutura, tecnologia e competitividade. A impressão que fica é a de uma nação administrada com metas de longo prazo, foco em resultados e enorme capacidade de execução. Isso não significa que não existam problemas. Certamente existem. Como existem em qualquer grande potência. Mas significa que a realidade é muito mais complexa do que os estereótipos que muitas vezes chegam até nós. Ao final da próxima semana, deixarei a China com mais perguntas do que respostas. Mas também com uma convicção. Se o restante do mundo ainda enxerga a China pelos olhos de 20 anos atrás, corre o risco de não perceber que uma das maiores transformações econômicas, tecnológicas e sociais da história contemporânea já está acontecendo diante dos nossos olhos.